O promotor mais polêmico da cidade

Quem acompanha o advogado Maurício Antônio Ribeiro Lopes em uma alegre "pizzada" em casa, com a mulher e os dois filhos, acha difícil associar o animado chefe de família ao promotor apontado atualmente como o mais polêmico do Ministério Público paulista. "Sou visceral quando defendo meus pontos de vista, é da minha natureza. Nunca uso apenas argumentos jurídicos, tenho a necessidade de humanizá-los", explica o morador de Higienópolis, de 49 anos, que atua na Promotoria de Habitação e Urbanismo.

PAULO SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2011 | 03h04

Se dependesse apenas dos pareceres de Lopes, o palhaço-deputado Tiririca, acusado de ser analfabeto, teria sua candidatura impugnada por falsidade ideológica; o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e 23 vereadores da Câmara Municipal estariam afastados até hoje - chegaram a ser cassados pela Justiça, após ação do promotor, por doações de campanha; e um grupo de moradores de Pinheiros, zona oeste, que tentou impedir a instalação de um albergue para moradores de rua na região, seria punido por incorrer em crime de "intolerância social" - Lopes comparou o grupo a "higienistas do Terceiro Reich (nazista)".

"Não acho que eu seja temido nem gostaria de me impor pelo medo. Prefiro ser respeitado", afirma o promotor.

A reportagem tentou repercutir algumas de suas ações como promotor com as personalidades envolvidas e ouviu respostas cautelosas. "O promotor fez o trabalho dele", disse Tiririca. "Ele é polêmico", resumiu o prefeito Kassab, fazendo com a mão um gesto de quem passa o zíper na boca. "Promotores acusam. Não vou entrar no mérito", desconversou o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Antônio Carlos Rodrigues, um dos processados no caso das doações de campanha.

Se não quer ser temido, Lopes está longe de ser temeroso. Trata com a mesma obsessão do caso dos moradores de Pinheiros e da facção criminosa PCC (foi promotor do Tribunal do Júri, que trata de crimes contra a vida). E diz que nunca sofreu ameaças. "Me acho até injustiçado", afirma, rindo.

Pela atenção que dispensa "à enorme demanda social da população desfavorecida", há quem o enquadre como "de extrema esquerda". Seu histórico como eleitor derruba a tese. "Votei para presidente em Brizola, depois no Lula (contra Collor), FHC duas vezes e em branco na última."

Sua bandeira mais evidente é São Paulo. Diz que luta pelo "fim da incomunicabilidade dos extremos sociais". "Falta à elite brasileira substrato fático para se chamar assim. Quem não tem cultura não pode ostentar." Juízes, promotores e advogados não escapam de críticas. "O problema dos operadores do Direito é o distanciamento. Quem trabalha com seres humanos não pode se encastelar, dirigir carro blindado", diz ele, sacando do bolso um bilhete único.

Paixões. Nascido em São Paulo, Lopes viveu a maior parte da infância no Brooklin, zona sul, mudou-se para Perdizes, zona oeste, e depois foi viver em Higienópolis. Os pais fizeram de tudo para ele ser médico, uma expectativa frustrada. Durante os tempos de USP, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, fez teatro e pensou em virar ator profissional.

Casado pela segunda vez, agora com a defensora pública Flávia D'Urso, de 47 anos, o promotor conta que se apaixonou por ela no dia em que a conheceu. Flávia lembra. "Foi em um boteco pé sujo atrás do fórum. Eu já sabia quem era, mas ele não tinha ideia da minha existência."

Desafetos o acusam de ser muito vaidoso. Ele nega, mas logo nos cinco primeiros minutos de conversa declara abertamente o quanto se orgulha por viver intensamente suas paixões - em todas as instâncias. É incapaz, por exemplo, de dizer apenas "gosto de cinema". Apresenta provas. Tira do bolso um "passe livre" da Mostra Internacional de São Paulo e afirma que vai passar o fim de semana indo de um filme a outro.

Outra paixão: cozinhar. Conta que participa de uma confraria de promotores gourmets que se reúnem uma vez por mês. Da última vez, eles se encontraram no bistrô Ville du Vin, em Alphaville, na Grande São Paulo. Um dos confrades, o promotor Luís Roberto Wakim, elogia o comprometimento do colega. "Ele tem profundidade. Nunca deixa de dizer o que pensa e faz isso naturalmente."

Nas férias, Ribeiro Lopes gosta de viajar. Já pisou em quase metade das 193 nações-membros da ONU. "Conheço 88 países." Que fique claro, não é "de passagem". Vai às cidades mais escondidas no mapa e planeja detalhes desde o embarque. Conta que, quando foi ao Egito, com escala em Frankfurt, na Alemanha, advogou ardentemente no check-in pelo direito de não despachar as malas. "Não dá pra fazer escala de apenas uma hora num aeroporto daquele tamanho. Ou você perde o voo, ou a mala."

O caçula João Marcelo, de 12 anos, ri dos arroubos do pai. "Uma vez, no cinema, ele deu uma gargalhada tão alta que a menina do lado disse: 'Cala boca, tio!'". Ele aceitou o "cale-se". Só esse. / COLABOROU FELIPE FRAZÃO

De abrigo em Pinheiros a obras antienchente, Maurício Antônio Ribeiro Lopes

está por trás de alguns dos casos que deram o que falar em SP nos últimos dias

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