O produtor que cria a São Paulo dos filmes

Especialista em locações, Paulo 'Punkadão' acha mais fácil encontrar aqui do que em Paris seu cenário ideal, mas já teve de pagar aluguel até para bandidos

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Finalmente alguém encontrou uma serventia para a promiscuidade arquitetônica que forma a paisagem de São Paulo. O produtor de locações Paulo "Punkadão" Sakopniak, de 34 anos, há 12 na função, diz que é muito mais fácil encontrar o cenário ideal aqui do que, por exemplo, em Paris, onde "tudo é lindo, mas muito parecido". "Em São Paulo você acha prédio neoclássico, moderno, galpão, barraco, mansão, fábrica abandonada, "predinho europeu", vila, casa geminada", diz o responsável pela ambientação de filmes como Linha de Passe, As Melhores Coisas do Mundo, Lula - O Filho do Brasil e O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias.

Descendente de ucranianos, ele nasceu no ABC, fez metade do curso de publicidade e começou em produção de comerciais. Na ocasião, arrumou um estágio em um estúdio na Pompeia. "Varri chão, lavei banheiro, pagava pra trabalhar", lembra. O primeiro longa foi Carandiru, de Hector Babenco, de quem ele não guarda boas lembranças. Babenco não quis comentar.

De lá pra cá, Punkadão filmou com Laís Bodanzky, Walter Salles, Sérgio Bianchi, Cao Hamburger, Beto Brant, enfim, sem contar os filmes publicitários. "Não existem muitos produtores de locação", explica.

Com a cidade toda na cabeça - e em um HD com 300 mil fotos de locações -, Punkadão elege a Liberdade como bairro favorito. Define a região como "uma salada de universos, com infinitas possibilidades". Entre os locais mais filmados estão o Edifício Copan e o Parque do Ibirapuera.

Em suas buscas, quando avista uma casa fotogênica, ele bate palmas à porta. Para o proprietário, pode ser um bom negócio. Segundo Punkadão, há quem viva do aluguel do imóvel para locação. O artista plástico Dudu Santos já locou o dele mais de 20 vezes. "Não é simples como se imagina. Eles fazem uma bagunça danada. Entram umas 70, 80 pessoas", diz o artista, que mora em um casarão modernista no Morumbi e ganha cerca de R$ 5 mil por dia de aluguel.

Ele acredita que o interesse vem da versatilidade do lugar, que tem 600 metros quadrados, pé-direito de 8 metros e pode funcionar como estúdio, casa ou prédio. Santos não teve "o menor interesse" em assistir aos filmes rodados na casa. "Eles gastam uma fortuna para produzir um comercial e, quando você vê na TV, se pergunta: "Precisava de uma casa premiada (pelo projeto arquitetônico) para isso?""

Faculdade "deletada". Punkadão explica que, de fato, os diretores "pintam e bordam na hora da edição". "O dia vira noite, o Minhocão fica bonito, o que não interessa simplesmente desaparece." Recentemente, em um comercial de desodorante gravado com Felipe Massa no centrão velho de São Paulo, "deletaram" a Faculdade do Largo de São Francisco . "Colocaram uns predinhos franceses no lugar."

Filmar na rua custa dinheiro. "Você paga por hora (à Companhia de Engenharia de Tráfego, CET). Parou a frota na calçada, paga; não pode dia de semana e à noite é mais caro." A CET informa que, de acordo com a Lei de Eventos, os custos de filmagens podem ir de R$ 119,13 a R$ 1.634,18, dependendo da ocupação viária, do impacto no trânsito e das necessidades operacionais. O número de solicitações para filmagens subiu de 186 para 419, desde janeiro de 2009. Para ajudá-lo com a burocracia, Punkadão conta com a ajuda de um setor da Prefeitura chamado "film comission".

Ainda assim, nada ocorre de um dia para o outro. Em caso de emergência, ele lança mão de boas locações de externas, como o Centro Empresarial, na zona sul. "Quem autoriza é o condomínio, não a CET", diz. Outro curinga quando se precisa de um escritório elegante é a sede da incorporadora Tibério, na Avenida Brasil. "A filmagem tem de ser das 17h às 6h, para não atrapalhar o expediente", afirma a secretária executiva Juliana Marques, que trata do assunto. Ali, a locação sai por R$ 1.400 a hora.

A negociação é por conta de Punkadão. Para rodar uma minissérie em uma favela na Brasilândia, ele diz que precisou "pagar aluguel" para criminosos que dominavam a área. "Não dá pra ir entrando assim. Tudo tem um preço ", explica.

O dia de trabalho de Punkadão custa R$ 3 mil. Se aumentam as locações, em caso de comerciais, o cachê sobe. Ele diz que chegou a ganhar R$ 18 mil em uma semana. E prefere cinema: dá estabilidade por um período maior.

Desde o começo. O produtor de locação é um dos primeiros convocados pelo diretor. Ele recebe o roteiro, lê e tenta enxergar os ambientes. Nem sempre consegue. "Em Bruna Surfistinha eu estava no meio do roteiro e não "via" o filme. Precisei conversar com o Marcus (Baldini, diretor)." Em sua pesquisa dos ambientes frequentáveis por Surfistinha, ele percorreu "quitinetes, inferninhos, motéis cinco estrelas, clubes noturnos".

Mas o que Punkadão gosta mesmo é de realizar ideias aparentemente estapafúrdias, como na vez em que alugou um lago, em São Bernardo do Campo, para ambientar uma enchente no filme sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Mandei tirar todos os peixes, esvaziei o lago, a equipe de arte entrou e reconstituiu nossa locação na Vila Carioca (não era possível simular uma enchente no bairro)."

Encheram de novo o lago de água e Glória Pires entrou no cenário inundado, para filmar. "Quando acabou, desmontamos tudo e devolvemos os peixes." A conta: R$ 90 mil.

Punkadão trabalha muito, mas também se diverte. A história mais engraçada de seu currículo é a de um filme que mostra um contrabandista oriental à solta pela cidade. A equipe veio da China disposta a transformar São Paulo na "Plastic City" do título. "Os personagens voavam de uma pilastra para outra das obras do Fura Fila. Tinha sangue esguichando para todo lado e até neve caía em São Paulo", lembra.

Desta vez, a cidade cenográfica não conseguiu salvar o estrepitoso roteiro. "O filme foi um fiasco de público e crítica", diz Punkadão.

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