Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

O 'Premiê' de um pedaço da Itália em SP

Giuseppe Cappellano, o presidente que há mais tempo está na direção do Circolo Italiano, tenta rejuvenescer o clube centenário no centro da cidade

Valéria França, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Hoje, Dia das Mães, o engenheiro italiano Giuseppe Cappellano, de 77 anos, está exultante. Ao lado da mulher, a "mama" Renata, de 77, vai reunir toda a família - 4 filhos, 12 netos e uma bisneta, além de agregados, genros, noras e ex-noras - no restaurante do Circolo Italiano, a mais antiga associação paulistana de imigrantes italianos, que funciona nos dois primeiros andares do Edifício Itália, na Avenida Ipiranga, no centro.

Entre os cerca de 400 sócios, Cappellano é um dos mais antigos - atualmente, o número sete. Também acumula o cargo de presidente do clube que traz no livro de associados alguns dos sobrenomes que ajudaram a fazer a história da cidade, como Matarazzo, Crespi, Papaiz e Comolatti. Em pleno centro velho de São Paulo, o Circolo é um pedaço da Itália um pouco escondido, mas que está entre os tesouros da cidade que merecem ser redescobertos pelos paulistanos.

A associação completou um século em abril e as comemorações se estendem até maio de 2012, o que traz um certo agito aos salões, que nos áureos tempos foram disputados pela sociedade paulistana. Para reforçar, em outubro começa o Ano da Itália no Brasil.

Mas quem pisa nesse território tem de estar preparado. Ali, todos - do presidente ao garçom, o maranhense Francisco Ivaldo, de 41 - falam o idioma do primeiro ministro Silvio Berlusconi, que esteve nos salões do Circolo em 2010. E os costumes, bem..., ali o que reina é uma nostálgica tradição italiana.

Tudo indica que o tempo parou nos anos 1960. As paredes são revestidas de lambris escuros e o chão é de mármore. Para iluminar, pendem grandes lustres de murano. Aberto no almoço para o público e um dos atrativos do clube, o restaurante tem garçons com jaleco branco e gravata borboleta preta. A comida é servida em grandes travessas. E, no cardápio, não há pratos contemporâneos.

Risoto com funghi chileno, penne al pomodoro, cabrito e vitela são algumas das opções que fazem parte, por exemplo, do bufê do almoço do Dia das Mães, hoje precedido de uma missa. "A vitela é muito boa", indica Massimo Ferrari, italiano de Piemonte, dono da rotisserie Felice e Maria, na Vila Olímpia.

Os pratos têm ótimo custo-benefício. Um escalopinho com risoto ao funghi sai a R$ 40, por exemplo. "Mas não é só a comida", explica Ferrari. "Quando vou lá, sinto saudade da Itália. Trata-se de um ambiente genuíno."

Mesas enormes como a da família do presidente são uma constante nos almoços de domingo. Às vezes, o ambiente ainda conta com a animação extra de um "conjuntinho", como costuma dizer Cappellano, que toca Tarantela e Torna Sorrento, entre tantas outras canções napolitanas da velha guarda. Os descendentes falam alto e gesticulam muito, como nos filmes interpretados pela atriz Ana Magnani na década de 1950. Nada que lembre as cantinas da Bela Vista. O tom é aristocrático.

Ali estão reunidas famílias de imigrantes que tiveram ótima formação. Cappellano, por exemplo, nasceu, digamos por descuido, na França, cresceu na região de Piemonte, na Itália, e aos 16 anos mudou com a família para São Paulo. Após estudar no Colégio Dante Alighieri, entrou para a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde estudou com figuras famosas, como os ex-governadores Mário Covas e Paulo Maluf.

Renovação. Hoje, ele cuida de um patrimônio avaliado em R$ 31 milhões. No Edifício Itália são dois andares, o teatro e salas alugadas. A antiga sede - a palazzina (pequeno palácio) - foi derrubada para dar lugar ao prédio na década de 1960. Há ainda o clube campestre, no Campo Limpo, na zona sul.

"Faltam jovens no Circolo", lamenta o sócio José Messina, diretor do Colégio Dante Alighieri, nos Jardins. Cappellano, o diretor com mais tempo de cargo- 16 anos, somando suas três gestões -, sabe disso. "Sempre tive receio de enaltecer a Itália para os meus filhos. O Brasil é nossa terra. Por isso, eles não se envolveram. O desafio do centenário é rejuvenescer o clube. Caso contrário, não teremos para quem deixar tudo isso."

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