O prazer da doença

Ainda é forte entre nós fazer da doença motivo e pretexto da renovação ritual dos laços sociais de parentesco, amizade e vizinhança, apesar da sociedade ter mudado muito nos últimos 60 anos. Mesmo com o desenvolvimento urbano já acentuado e a corrosão dos costumes que nos vinham dos tempos antigos, no começo dos anos 1950 era mais comum que um doente fosse tratado em casa do que em um hospital. Mas ainda hoje os hospitais são herdeiros da tradição das romarias terapêuticas.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2011 | 00h00

Naquele tempo, mal se espalhava pela vizinhança que seu fulano ou dona fulana estava doente, a casa do enfermo era invadida pelas vizinhas para distribuir e assumir as tarefas domésticas. O limite entre público e privado era bem outro. A doença franqueava a porta das casas. Até vizinhas e vizinhos que não se davam bem encaravam a doença como armistício. Nesse caso, a solidariedade prevalecia sobre o rancor.

Esse exército de ocupação distribuía-se entre as tarefas da cozinha, do tanque, da limpeza da casa e as de cuidar das crianças e da enferma ou enfermo. Os vizinhos acudiam porque alguém "ficar de cama" e não trabalhar era sinal de doença grave. Só então o médico era chamado. Mas a medicina de faculdade tinha de concorrer com a medicina caseira. Toda vizinhança tinha suas benzedeiras e suas especialistas em tratamentos à base de ervas. Todas conheciam uma culinária terapêutica que fazia milagres, quase sempre caldo de galinha. Não faltava ironia: em casa de pobre, quando se comia frango, um dos dois estava doente. Além de uns tratamentos estranhos: quando criança, tive, um dia, de tomar uma mistura de leite de uma vizinha recém-parida com raspa de semente de pacová. Isso me fez quase parente da doadora. Resquício da maternidade putativa da mãe-preta, na sacralidade do leite e do sangue.

Ficar doente era um modo de receber atenção na alimentação e na deferência das visitas obrigatórias. Melão, maçã, pera e uva "estrangeiros" só provei quando doente. E água mineral também, comprada na farmácia! Ai de quem se omitisse nos deveres da solidariedade. Minha mãe tinha até mesmo um caderno em que anotava os nomes das visitas, para agradecer, mas também para cobrar reciprocidade. Orgulhava-se das listas extensas, sinal de prestígio. Exibia-se. Meu padrasto, operário, tinha sinusite. As dores de cabeça eram tão intensas que seus gemidos faziam doer a cabeça da família inteira. Foi quando o médico lhe receitou não sei quantos milhões de unidades de penicilina, medicamento ainda raro, cuja injeção doía tanto quanto a doença a ser curada. Esses milhões e a injeção dolorida tiveram um efeito miraculoso antes do efeito do remédio. Algo verdadeiramente grande em sua vida, uma doença que só podia ser curada com milhões de alguma coisa. Tornara-se milionário por uns poucos dias.

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