O poste

Não só de luminárias são feitos os postes. Em São Paulo, poste sofre, mas não reclama. Cachorro desamparado mija no poste. Marmanjo sem educação, também, atrás do poste. Em que lado do poste fica a frente? Os cansados se escoram no poste. Entende-se por que tantos postes não estão no prumo. Anunciante pobre apregoa novidades e ideias colando cartaz no poste: bailes, mercadorias, mensagens religiosas, propaganda eleitoral, amarrações de amor, anúncios de cachorro perdido, tudo vai para o poste, a mais democrática instituição brasileira.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2012 | 02h03

O que seria de nós sem o poste? Até ditos populares se valem do poste: "Não sou poste pra que você venha se encostar em mim", diz a vítima da preguiça alheia. "Sou poste de Lula", foi o primeiro discurso do prefeito que acaba de ser eleito em São Paulo. Se o prefeito é poste, quem será o prefeito?

Anúncio de poesia também vai pro poste: "Pai Maicknuclear lê poema, amarra prosa, traz seu texto de volta em sete dias", li num poste no bairro do Ibirapuera. O pai do anúncio identifica-se como membro de um movimento de "terrorismo poético". Ainda bem: melhor do que terrorismo impoético, com sangue de inocentes e sem rima.

Da São Paulo romântica sobrevivem alguns postes. Os mais belos são, sem dúvida, aqueles dois postes ornamentais que ladeiam a escadaria de acesso à entrada principal do Theatro Municipal. São antigos, centenários. Esses postes têm uma figura feminina como suporte, nas duas faces, em que se apoia a coluna que sustenta as luminárias. Foram entalhados em imbuia do Paraná, em 1910, por Affonso Adinolfi, professor de escultura em madeira e diretor técnico do Liceu de Artes e Ofícios. Era a técnica que se utilizava antes de fundir a obra de arte.

O Theatro foi inaugurado em 1911, pouco depois do término do mandato do Conselheiro Antônio da Silva Prado, primeiro prefeito de São Paulo, que o mandara construir. Prado foi patrono de medidas que, no Império, transformaram o Brasil no país que conhecemos e de que gostamos: a abolição da escravatura e a imigração estrangeira para os cafezais do interior. Era filho de Dona Veridiana Prado. Morava em um palacete na Chácara do Carvalho, lá para os lados da Barra Funda.

Os postes foram fundidos pela firma Lidgerwood Limited, com estabelecimentos em Nova York, na Escócia e em Java. No Brasil, foi seu fundador William Van Vleck Lidgerwood, inicialmente com casa de importação no Rio de Janeiro. Em 1868, abriu um depósito de máquinas agrícolas em Campinas e, em 1884, ali instalou a fundição de onde sairiam os postes do Municipal de São Paulo.

Já vi mocinhas acariciando o seio de uma das figuras femininas dos postes. Dizem que é para ter sorte no amor, como fazem os apaixonados na escultura da casa de Julieta, em Verona. O problema é se o Romeu que aparecer for um poste.

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