O portão

Muita história passou por aquele portão. Portão é lugar de passagem, de entrada e de saída, obra que define o de dentro e o de fora, limiar de dois mundos opostos. A porta e, por extensão, o portão têm um lugar mais importante do que se imagina na cultura brasileira. Há neles o poder simbólico dos limites. Roger Bastide, que foi um dos fundadores da USP, já tratou da porta barroca em artigo primoroso. Trato aqui do portão, que tem em comum com a porta certa sacralidade, bíblica e litúrgica, aliás.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h06

Entre nós os portões foram tardios e diferentes das porteiras, estas voltadas para distinguir o privado do que é público. Aqueles para diferenciar o que é devassado do que é íntimo, na extensão das funções mágicas e protetivas da porta. Difundiram-se aqui já no fim do século 19, quando as novas habitações urbanas eram recuadas para o interior do terreno, abrindo o vestíbulo de um jardim entre a rua e a casa.

Entre nós, os portões tiveram a sua glória na arte do ferro, como complemento dos gradis das mansões, dos solares e dos palacetes. A demolição dessas habitações senhoriais, substituídas por edifícios que estão longe do encanto de suas predecessoras, no geral, levou para o ferro-velho e para a fornalha das fundições verdadeiras obras de arte.

Mas houve gente de bom senso que deles cuidou. Destaco aquele lindíssimo e monumental portão de ferro da Rua Dom Luiz Lasagna nº 300, no bairro do Ipiranga. Foi ali colocado em 1896, quando o Dr. José Vicente de Azevedo ergueu uma de suas muitas obras pias, o Asilo de Meninas Órfãs Desamparadas "Nossa Senhora Auxiliadora". A memória impecável de Manuel Antônio Vicente de Azevedo Franceschini, seu neto, nascido no bairro, em 1924, tem o registro desse e de outros fatos relacionados com aquele edifício, em cuja capela foi batizado. O portão adornara antes o Solar do Marquês de Três Rios, no bairro da Luz.

Foi forjado na fundição de A. Sydow, no mesmo bairro, de onde saíram tantos adornos da Belle Époque paulista. O solar fora construído, em 1850, no campo em que havia desde o século 18 o Mosteiro da Luz e o Jardim Botânico, atual Jardim da Luz, que ainda tem árvores dessa época. Cenário da Avenida Tiradentes, que nos começos do século 20 seria uma das ruas de palacetes elegantes de São Paulo. O solar fora construído por Fidêncio Nepomuceno Prates, cuja viúva se casaria com Joaquim Egídio de Souza Aranha, o Marquês, grande fazendeiro de café e senhor de escravos, em Campinas. Ali se hospedaram a Princesa Isabel e a família, em 1884. Foi da Cia. São Paulo Hotel, de 1891 a 1893, adquirindo-o o governo de São Paulo, em 1894, para nele instalar a Escola Politécnica. Nessa época, o portão foi comprado e levado para o Ipiranga. Por ele passaram nobres e pobres. Longe das antigas grandezas, continua solene e belo.

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