O poeta que virou voz na televisão

Aos 77 anos, o criador do Centro Cultural SP, Mário Chamie, divide-se entre a produção de sua obra, as aulas na ESPM e a locução na Record

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Só de poemas, são 15 livros publicados. Há ainda traduções, peças, textos para cinema e televisão e ensaios, como o recente Pauliceia Dilacerada, em cujas páginas um Mário de Andrade (1893-1945) póstumo ressurge discutindo a cidade que tanto amou - e pela qual, como chefe do então Departamento de Cultura, tanto lutou. O criador desta obra é um senhor de 77 anos, voz firme e discurso intelectual: Mário Chamie, formado em Direito, transformado em professor, sempre poeta, secretário municipal da Cultura - portanto, herdeiro do "Mário maior" - entre 1979 e 1983. E, vida movimentada, desde 2007 locutor de programa da Rede Record.

Trata-se do 50 por 1, atração de viagens apresentada pelo empresário - com fama de playboy - Álvaro Garnero. O que uniu os dois? "Eles queriam alguém que imprimisse um tom mais cultural ao programa", conta Chamie. "É bom porque me ajuda a pagar o condomínio."

O próprio Garnero confirma. "Sentimos que precisaríamos de uma voz para locução que fosse muito mais que a de um simples locutor", explica. "Alguém que tivesse ao mesmo tempo personalidade, reconhecimento, prestígio e humor. Chamie preenchia às maravilhas tudo que nós precisávamos." A primeira temporada passou em 2007. Atualmente na entressafra, o programa deve retornar em janeiro. "Trabalhar com ele é uma honra, uma felicidade, uma alegria. E o que é melhor: é sempre muito divertido", completa o apresentador.

A pleno vapor. Mas não é porque não tem gravação que o dia a dia de Chamie é menos ocupado. Diariamente ele vai à Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), onde leciona há quase 50 anos. Querido pelos alunos, é chamado carinhosamente de "Chamusquinha". "Ele é o nosso decano, o professor que está em atividade há mais tempo", diz José Roberto Whitaker Penteado, diretor da instituição. "Convivemos desde que cheguei aqui, há 43 anos. E acho que ao longo desses tempos eu envelheci e ele remoçou. Deve ser por causa do contato dele com os mais jovens." Além das aulas, Chamie dirige atualmente o Instituto Cultural da entidade.

De seu apartamento nos Jardins, o poeta vai a pé à loja preferida: a unidade da Alameda Lorena da Livraria da Vila. Ali acompanha os lançamentos literários e toma café.

Quando quer discutir literatura, entretanto, frequenta as reuniões - às quintas-feiras - da Academia Paulista de Letras (APL), no Largo do Arouche. Desde 1992, é o titular da cadeira número 26. Ultimamente, tem comparecido pouco aos encontros, é bem verdade. "Suas intervenções nos debates são brilhantes, ele tem um poder de síntese fabuloso e está sempre à frente do seu tempo", elogia o presidente da instituição, Renato Nalini. "Só gostaria que ele participasse mais da Academia."

Obra literária. Como poeta, Chamie estreou em 1955, com o livro Espaço Inaugural. Quatro anos mais tarde, casou-se com a designer e coreógrafa Emilie Chamie, com quem viveu até sua morte, em 2000. A filha única do casal, Lina Chamie, nascida em 1961, é cineasta.

Em 1962, com Lavra Lavra - laureado com o Prêmio Jabuti -, instaurou o movimento da poesia práxis, apontado por muitos como uma dissidência do concretismo de Décio Pignatari e dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos. "Suas experiências são interessantes como tentativa de manter a tradição do Modernismo, sem renunciar ao espírito de vanguarda", disse sobre a práxis, à época, o intelectual Antonio Candido. "Por ter criado um movimento que se tornou referência, Chamie é muito prestigiado", acredita o presidente da APL, Nalini.

A fama internacional lhe rendeu convites para dar palestras fora do País entre 1963 e 1964. Nos Estados Unidos, chegou a atuar na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), onde um dos alunos era Jim Morrison (1943-1971), que viria a se tornar astro internacional liderando a banda The Doors. Mas Chamie se esquiva de comentar o assunto. "Foi uma coisa tão casual que é absolutamente antiético dizer que eu dei aula para ele", resume, antes de mudar de assunto.

Cultura sem portas. Filho de imigrantes sírios, Chamie nasceu na pequena Cajubi (SP), em 1933. Como sua cidade não tinha escola com ensino médio, mudou-se para São Paulo aos 14 anos. "Foi um dia e meio de viagem: uma jardineira (ônibus) e dois trens", lembra. "Viajava-se de jaleco para que as faíscas (da maria-fumaça) não sujassem a roupa." Morava em uma pensãozinha no centro, na Rua Santo Amaro, e seu quarto ficava no primeiro subsolo. "Da janela eu via os pés das pessoas passando na rua...", ri.

Ávido devorador de livros, lembra-se da primeira vez em que foi à Biblioteca Mário de Andrade. "Achei tão suntuosa que não tive coragem de entrar. Achei que não era para mim, um rapazinho do interior", diz. Estudou no Colégio Estadual Presidente Roosevelt e, em 1956, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo. Exerceu a advocacia por apenas dois anos.

Quando virou secretário da Cultura, recuperou a imagem do menino que não tinha coragem de entrar na biblioteca para idealizar seu maior orgulho: o Centro Cultural São Paulo, no Paraíso. "Sem portas, para que todos pudessem entrar. E com um conceito interdisciplinar", frisa. E foi ali, em 1982, logo após a inauguração, que cunhou uma frase publicada em Pauliceia Dilacerada. Um repórter, capciosamente, fez uma comparação de Chamie com o outro Mário, de Andrade. E perguntou se, assim como Mário de Andrade foi homenageado com uma biblioteca, ele, Chamie, não fazia aquilo antevendo a possibilidade de seu nome um dia batizar o espaço. "Aí eu falei: há mários que vêm para o bem, e dos mários o menor sou eu. Não tenho pretensão nenhuma", conta, com um sorriso.

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