O plantão de tuitadas dos bombeiros de SP

Nove militares postam as cerca de 550 ocorrências diárias na rede, de pontos de alagamentos a vítimas baleadas na rua, e ainda orientam a população

Valéria França, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Eles são bombeiros experientes. O cabo Nascimento, de 42 anos, por exemplo, tem duas décadas de serviço na corporação. Nos últimos anos, esteve presente nas maiores tragédias vistas na Grande São Paulo, como a explosão do shopping de Osasco, em 11 de junho de 1996, onde morreram 42 pessoas e 300 ficaram feridas, e o acidente do Fokker 100 da TAM, que deixou 99 mortos, em 31 de outubro do mesmo ano.

Nascimento é um dos nove bombeiros que controlam o Twitter da corporação em São Paulo (@BombeirosPMESP). O perfil de microblog foi montado no fim do ano passado, com o objetivo de informar com agilidade sobre as cerca de 550 ocorrências diárias da metrópole – de acidente de carro a ferido em assalto.

 

Em fevereiro, quando o ex-árbitro de futebol Oscar Roberto de Godói foi atingido por dois tiros de um assaltante em Perdizes, na zona oeste da capital, a informação já estava no Twitter do Corpo de Bombeiros, antes de o resgate chegar. A página ganha cada vez mais seguidores – internautas registrados para receber as últimas notícias postadas.

 

 

“Decidimos pela ferramenta para agilizar a informação, e ficamos mais próximos da população”, diz o tenente Palumbo, de 36 anos, idealizador do projeto. “Tem gente que entra na página só para dar boa noite”, diz o soldado Vladimir, de 46 anos, e 16 de corporação. Ele costuma dar plantões de 24 horas, e nunca fica sozinho. Há sempre um internauta escrevendo. “Os bombeiros, em geral, são queridos pela população.”

Há sempre um parente de alguma vítima salva que surge para agradecer. Um deles costuma até levar bolo para a corporação, que fica na Praça Clóvis Bevilaqua, no centro.

 

 

O Twitter não é um serviço de emergência. No máximo, funciona para tirar dúvidas. Quando a pergunta merece uma resposta mais complexa, o internauta é direcionado para o site dos bombeiros, que concentra as explicações das dúvidas mais comuns. “Bebê engasgado é uma delas”, conta o soldado Vladimir. “Sempre tem um tuíte (postagem) sobre isso.”

 

Mesmo assim, surgem algumas emergências por este canal. “Recebi a informação de um acidente de moto. Passei para o 193 e já acionei a viatura para o local”, conta o cabo Marco, de 35 anos.

 

 

Uma paulistana escreveu pelo celular que estava em uma rua que começava a alagar. Queria saber o que deveria fazer. “Escrevi que tirasse o carro de lá bem rápido. Avisei que não deveria trocar a marcha e muito menos tirar o pé do acelerador”, conta o tenente Palumbo. Em seguida, ela perguntou qual seria o nível de água seguro para isso. “Respondi que se passasse do meio da roda, ela deveria abandonar rapidamente o carro. Ela sumiu do Twitter.”

 

 

Enquanto o tenente é do tipo que coloca no Twitter as ocorrências que vê no meio da rua pelo próprio celular, o restante do grupo não é assim tão afeito às comunidades da web. Até ser transferido para o projeto, o soldado Vladimir, por exemplo, nunca havia entrado no Twitter. “Atendia os chamados do 193. Estou aqui apenas pela minha habilidade de lidar com o público.” Mas acabou gostando da nova ferramenta de trabalho.

 

 

Sangue de bombeiro. Cabo Rodrigues, de 36 anos, sente falta da ação. “Isso é bem normal. A gente tem sangue de bombeiro”, explica o sargento Ronaldo, de 42 anos, que gosta de ação como o colega. “Muitos do grupo levam no carro um kit de emergência para uma eventualidade fora do período de trabalho. Nunca estamos de fato de folga.”

 

 

 

Mas não é melhor tuitar do que enfrentar uma cortina de fogo? “Quando a gente atravessa uma nem pensa. Sempre quis ser bombeiro”, conta o sargento Ronaldo. “Quando era pequeno, colocava fogo em tudo para depois apagar. Meus pais nunca me deixavam sozinho.”

 

 

 

São as famílias as mais satisfeitas com as novas funções do grupo. “Mariana, minha filha de 8 anos, já me disse que estava preocupada comigo”, conta Palumbo. Ele havia mostrado fotos dos bombeiros em ação no calendário da corporação e ela finalmente entendeu seu trabalho.

 

 

 

Mesmo assim, a equipe do Twitter às vezes tem de ir para a rua. “Estava a 40 metros de altitude, pendurado numa torre de alta tensão, quando meu celular tocou.” Era Mariana, que viu o pai na TV. Palumbo estava tentando impedir um suicídio. E teve medo. Por isso, desta vez, ele que teve de usar a tecnologia.

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