Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

O pianista que usa o trânsito para compor

Aos 70 anos, Amilton Godoy, do conjunto Zimbo Trio, dedica-se a projeto social que capacita adolescentes para trabalhar como músicos e assistentes técnicos

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

Amilton Godoy tem um jeitão simples e um sorriso de quem está de bem com a vida. Pianista do aclamado conjunto Zimbo Trio - fundado em 1964 - e diretor do Centro Livre de Aprendizagem Musical (Clam), escola criada pelos integrantes do Zimbo em 1973, seus olhos brilham ao falar de um projeto social. No segundo semestre do ano passado, ele recebeu em sua escola 18 jovens de baixa renda. "Aprenderam sobre tudo que um espetáculo precisa: podem atuar como montadores, como roadies, como assistentes...", enumera. "Além disso, eles montaram três sextetos."

Na próxima quinta, eles atuarão nos bastidores do show que Amilton fará ao lado da flautista Débora de Aquino no The View (Alameda Santos, 981, Jardim Paulista). "Pela primeira vez, ganharão como profissionais", empolga-se Amilton. O curso faz parte de um programa patrocinado por uma multinacional de bebidas e deve ganhar novos alunos daqui a alguns meses. E por que o nome do pianista do Zimbo para curador do projeto? "Por sua trajetória e importância como músico e pelo trabalho que desenvolve à frente do Clam, referência na formação de músicos", explica Luiz Osorio, diretor da empresa.

Os elogios são corroborados por muitos do meio musical. "Por sua formação clássica, Amilton levou para o Zimbo Trio uma linha de execução de altíssimo nível", diz o musicólogo e crítico de música Zuza Homem de Mello. "Dos três integrantes da formação original, sem dúvida o estilo mais elaborado e mais virtuosístico é o de Amilton."

De trem. Nascido em 1941 em Bauru, no centro-oeste paulista, Amilton vem de uma família bem musical. Seu avô tocava alaúde. Seus dois irmãos - Adilson e Amilson - também se tornaram músicos profissionais. Seu pai tocou violino em orquestra e atuava como trompetista em uma boate. Um de seus tios por parte de pai tocava trompete; outro, por parte de mãe, era maestro e pianista. A mãe regia o coral da igreja. "Comecei a tocar piano aos 10 anos", lembra. "Com 13, me apresentava em um bar lá de Bauru e era a atração pela pouca idade, ainda de calças curtas."

Nessa época, começou a tocar na igreja. Convenceu o padre a comprar um órgão novo. "Ele pegou o dinheiro da quermesse, foi para São Paulo e voltou com o instrumento, novinho." Pouco tempo depois, aos 16 anos, resolveu fazer "uma loucura", como ele mesmo diz: ir uma vez por semana para São Paulo para tomar aulas com a pianista Magda Tagliaferro (1893-1986).

"Meu pai era ferroviário e conseguia os bilhetes de trem de graça. Eu saía de Bauru todas as quintas, às 6h10 da manhã. Chegava à Estação da Luz às 12h23. Então tinha aula das 14h às 16h30 e depois pegava um trem de volta para o interior", explica. "Era assustador sair de uma cidade como Bauru e descer em São Paulo. Eu rezava para não acontecer nada de estranho, porque você tem de ter respeito pela cidade grande."

Mudança. Dois anos depois desse corre-corre, Amilton ganhou menção honrosa em um concurso da Rádio Eldorado. E uma bolsa para se mudar para a capital paulista. "O dinheiro dava para pegar pensão, escola de música e comida. Então disse: "Tchau, Bauru!""

Em São Paulo, passou a tocar na noite. "Dava canja em apresentações de meus ídolos, que depois se tornaram parceiros", diz, referindo-se principalmente ao baixista Luiz Chaves (1931-2007) e ao baterista Rubens Barsotti, com quem formaria depois o Zimbo Trio. "Eles tocavam na Baiuca (bar no centro paulistano). Aí saiu o pianista. Foi fazer não sei o que lá nos Estados Unidos. O Rubinho (Rubens Barsotti) falou que tinha outro, me convidou."

Isso foi em 1963. No ano seguinte, nascia o Zimbo Trio, com a proposta de "que o músico saísse da função de fundo de conversa e fosse para o centro do palco". O primeiro show foi na Boate Oásis, em 17 de março de 1964, acompanhando Norma Bengell. No fim do mesmo ano, já lançavam o primeiro disco - o 51.º, acompanhado de DVD, deve sair neste ano.

O sucesso veio em seguida. Em 1965, o Zimbo Trio passou a fazer acompanhamento fixo do programa O Fino da Bossa, da TV Record, apresentado por Elis Regina (1945-1982) e Jair Rodrigues. "Viajamos pelo mundo todo. Fizemos shows em mais de 40 países, em todos os continentes."

Em 1973, o grupo criou o Clam. "A escola representa uma iniciativa do trio em passar adiante a sabedoria que eles tinham em relação à música", afirma Zuza Homem de Mello. "Em uma época em que não havia quase nenhuma escola de música em São Paulo, o Clam é a concretização da generosidade de um grupo de músicos. Isso não tem preço." A escola, localizada em Moema - perto das casas de todos os integrantes do grupo -, já chegou a ter 900 alunos. Hoje, são pouco mais de 200.

O grupo continua na ativa. Com mudanças. Luiz Chaves morreu em 2007. Rubens Barsotti passou por grave cirurgia no começo deste ano e não comparece mais a todos os shows. São substituídos pelo baixista Mário Andreotti e pelo baterista Sápia. "Quando o Rubinho pode tocar, nos transformamos em um quarteto", explica Amilton. Nove anos mais jovem que ele, sua mulher, Ana Luiza, acompanha o conjunto em todas as viagens. "Ela cuida da agenda e das questões geriátricas", brinca.

Paulistano. Sua relação com a cidade se intensificou com o passar dos anos. Aquela metrópole assustadora, gigante e que amedrontava o garoto que chegava de Bauru transformou-se em acolhedora. "Todo mundo que vem para cá vira paulistano, não tem jeito", resume. Até o caos do trânsito, quem diria, ajuda em suas composições. "Eu tenho uma ideia enquanto estou dirigindo. Aí, quando o sinal fica vermelho, paro para anotar. O sinal abre, todos os caras ficam buzinando. E era aquela a música mesmo."

O NOME

ZIMBO TRIO

GRUPO INSTRUMENTAL DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

"Zimbo" é uma palavra africana. "Nós achávamos que a música africana tem enorme influência na nossa música", explica Amilton Godoy. É o nome de uma antiga moeda do Congo e significa sucesso, boa sorte. "Com um detalhe: é uma palavra universal, que não tem tradução para outros idiomas."

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