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O pedágio da Freguesia do Ó (e outras curiosidades)

No século XVIII, a Vila de São Paulo instituiu um pedágio para quem atravessasse a ponte de madeira que ligava o centro ao bairro. Era o valioso caminho do ouro

O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2015 | 17h14

O primeiro pedágio da cidade teria sido estabelecido em 1741, na ponte que ligava a Freguesia da Nossa Senhora do Ó e a Vila de São Paulo. Era um dos importantes caminhos que levavam ao pico do Jaraguá, onde havia ouro (que foi descoberto ali pelos colonizadores antes mesmo de Minas Gerais). As curvas do rio Tietê e as porteiras das ferrovias cujos trilhos cortariam a cidade a partir do século XIX contribuíam para apartar o bairro da mancha urbana mais povoada e desenvolvida nas regiões centrais da cidade. Assim a Freguesia foi se desenvolvendo peculiar e lentamente, de um jeito interessante, charmoso e caipira.

      1.Quando os bairros eram freguesias

No passado, os bairros de São Paulo eram denominados freguesias. Só a Freguesia do Ó conservou essa nomenclatura.

      2.A origem do nome

“Católico fervoroso, o bandeirante Manoel Preto ergueu, em 1580, uma igreja em sua propriedade, já que para ir até a Sé tinha de passar pelo Rio Anhemby (atual Tietê). A denominação “Ó” pode ter vindo das sete antífonas cantadas nas vésperas do Natal”, assim o surgimento simbólico do bairro é contado em uma reportagem do Estado, publicada em 2004 (um especial sobre o aniversário da cidade). Quanto ao nome, parece de fato ter a ver com as antífonas, considerando que em sua origem a capela surgiu na devoção da Nossa Senhora da Expectação (Esperança) e por ela eram cantados versos do tipo: “Ó sabedoria que saíste da boca do Altíssimo”; “Ó sol nascente, esplendor da luz eterna”, entre outros.

      3.Quem foi Manoel Preto

Tido como fundador da Freguesia do Ó, Manoel Preto foi um bandeirante muito conhecido em São Paulo. Era temido e odiado por uns e amado, em virtude de sua valentia, por outros. Cruel caçador de índios, casou-se com uma descendente do cacique Tibiriçá. Foi bastante violento também com os negros e dizem que na Freguesia havia muitos quilombos formados por escravos que fugiam de suas propriedades.

      4.O primeiro pedágio

O primeiro pedágio da cidade teria sido estabelecido em 1741, na ponte que ligava a Freguesia da Nossa Senhora do Ó e a Vila de São Paulo. Era um dos importantes caminhos que levavam ao pico do Jaraguá, onde havia ouro (que foi descoberto ali pelos colonizadores antes mesmo de Minas Gerais).

      5.Como o trem ajudou a isolar a Freguesia do Ó

Em 1865, foi inaugurada a ferrovia “inglesa”, que seria conhecida mais tarde como Santos-Jundiaí. Seu nome oficial era São Paulo Railway. Seus trilhos, junto com os da da Sorocabana e da Estação de Ferro Norte (futura Central do Brasil), que também partiam da capital (desde 1875), mudariam a cidade. As estações da Luz (São Paulo Railway), Júlio Prestes (Sorocabana) e Roosevelt (Central do Brasil) redesenharam o trânsito e botaram de escanteio bairros surgidos em outras “entradas” da cidade. “Com isso, subúrbios surgidos como pousos de tropa, como a Freguesia do Ó e a Penha, conheceram o isolamento e a decadência. As estações de trem inauguraram fluxos entre elas e o Centro que vieram se sobrepor amplamente às históricas entradas da cidade pela várzea do Carmo, caminho de quem vinha a cavalo, ou das mercadorias que chegavam no lombo dos burros”, escreve Roberto Pompeu de Toledo em “A Capital da Vertigem”.

      6.Destino de passeio na década de 1900

No começo do século XX, a Freguesia do Ó era um dos destinos favoritos de Antônio Prado Júnior, filho do então prefeito, o conselheiro Antônio Prado. Júnior era entusiasta da bicicleta e do automóvel e costumava explorar a cidade com os veículos trazidos ao país de suas viagens à Europa.

7. A cidade vista da Freguesia do Ó

Na página 216 de um livro de memórias sobre a história da cidade (“De Pastora a Rainha”, 1937) o autor Cícero Marques descreve São Paulo, na primeira metade do século XX, vista à noite do alto da Freguesia do Ó. É uma cidade “arrebatada por uma iluminação que pisca, tremeluz, pisca lembrando faróis apontando os escolhos submersos no mar nevoento da garoa”.

8.Pouca gente

Em 1920, São Paulo tinha pouco mais de 579 mil habitantes. A Freguesia do Ó estava entre as que concentravam menos moradores (5500 pessoas, mais ou menos).

      9.Navegando o Tietê

No tempo em que o rio apresentava alguma atividade econômica (transporte, recreação), na década de 20 do século passado, a ponte da Freguesia do Ó era considerada “precária”.

      10.Chuva de verão

Em 1929, São Paulo sofreu uma enchente que alagou os bairros perto da várzea do Tietê. Moradores da Freguesia do Ó e do Limão vindos da margem oposta teria de voltar para casa em duas etapas: caminhando na água até o porto da Água Branca e, dali, pegando barcos que os transportaria para perto de suas resideências atravessando a cheia. A viagem demorava uma hora.


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