Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

O passado do Ipiranga revisitado por olhos juvenis

Projeto de monitoria beneficia garotos de bairro pobre da zona sul, que passaram a orientar visitantes do Parque da Independência

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

10 Março 2011 | 00h00

Não estranhe se estiver passeando pelo Parque da Independência, no entorno do Museu Paulista, no Ipiranga, zona sul de São Paulo, e for abordado por um grupo de sorridentes jovens. Eles perguntarão se você quer saber um pouco mais sobre o lugar onde, em 1822, foi proclamada a Independência do Brasil. "Eu não gostava de História, agora sou fascinada", diz Mariana de Souza Soares, de 15 anos, do grupo de 25 adolescentes recém-formados como monitores culturais para atuar na área.

Trata-se do projeto Agentes Históricos, criado pela instituição Museu a Céu Aberto. Com a capacitação de jovens moradores da Vila Guacuri, bairro pobre da zona sul, a entidade pretende reduzir o vandalismo na capital - a começar pelo parque. "Eles aprenderam o que é restauração, o que é preservação e o que é conservação", afirma o coordenador, Francisco Zorzete. "Agora, circulam pelo parque, orientando visitantes."

Os participantes tiveram três meses de aula, entre 15 de setembro e 15 de dezembro. Como monitores, recebem bolsa-auxílio de R$ 210,83 para atuar no parque duas vezes por semana, em turnos de 3 horas. "Muitos não enxergam a cultura como fonte de renda. Queremos mudar isso", diz o arquiteto Sergio de Simone, professor do projeto.

O dia a dia. Abordar os estranhos no parque para lhes contar um pouco de história parecia um desafio imenso para a garotada. "Mas eles venceram a timidez com criatividade", diz Simone. "Nos fins de semana é mais fácil porque vem mais gente", conta a monitora Lais Cicero de Aguiar, de 15 anos. Ela lembra que muitos moradores antigos do bairro também relatam histórias sobre o local. "É uma troca de informações", completa.

"Esse tipo de projeto cobre uma falha dos governos", acredita Zorzete. "O frequentador do espaço público precisa se reconhecer na História para ter a iniciativa de preservar." As bolsas-auxílio aos monitores estão garantidas até o dia 15. O plano da instituição é prosseguir com o projeto: formando novas turmas de monitores e seguindo com o pagamento dos capacitados - para tanto, precisa renovar o patrocínio ou de novas empresas interessadas em bancar a iniciativa. "Podemos até expandir para outros lugares históricos", afirma Zorzete.

O TOUR DOS MONITORES

Parque da Independência

Patrimônio histórico nacional, ocupa 161 mil m2. Nele estão vários monumentos comemorativos que se referem à Independência do Brasil.

Museu Paulista

Erguido entre 1885 e 1890, desde 1894 abriga o Museu Paulista - também conhecido como Museu do Ipiranga. O bosque em anexo foi inaugurado em 1894 como Horto Botânico.

Museu de Zoologia

Trata-se do primeiro prédio da cidade concebido especificamente para ser um museu. Foi construído entre 1940 e 1941.

Monumento ao Centenário da Independência do Brasil

A escultura em granito e bronze foi projetada pelo arquiteto italiano Manfredo Manfredi e executada pelo escultor (também italiano) Ettore Ximenes, entre 1919 e 1926.

Jardins franceses e chafarizes

O jardim na frente do Museu Paulista é inspirado no do Palácio de Versalhes, na França. Foi idealizado pelo arquiteto belga Arsène Puttermans e concluído em 1909.

Casa do Grito

Apesar de sua denominação - alusiva à proclamação da Independência -, o imóvel foi construído, em data incerta, anos após o episódio histórico.

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