O pânico de Santa Maria

Há no Brasil um elenco de tragédias decorrentes de pânico em recintos fechados, com numerosas vítimas. Ficou na memória popular o caso de 1938, numa matinê no Cine Oberdan, no bairro do Brás. Alguém gritou "fogo!". Os que estavam no balcão dispararam em direção às saídas. Trinta e uma pessoas morreram esmagadas, crianças na maior parte. Em uma tarde de domingo de dezembro de 1961, um incêndio criminoso no Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, matou mais de 500 pessoas, 70% crianças. O caso de Santa Maria é de pânico em recinto desprovido de meios adequados à atenuação de suas consequências mais graves. As vítimas tentaram escapar, mas não encontraram a saída.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2013 | 02h01

O pânico é característico da sociedade moderna porque a multidão é dela praticamente constitutiva. A sociedade moderna frequentemente se expressa como corpo coletivo em grandes aglomerações humanas, temporárias, que atenuam ou anulam a competência para a reflexão individual e a decisão pessoal. Cada um se torna dependente do comportamento dos outros, comportamento por contágio.

O caso paradigmático de pânico foi o do Mercury Theatre, um programa radiofônico de Orson Welles, na noite de Halloween de 1938, que transmitia uma dramatização da obra de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos. Para imprimir realismo à apresentação, o programa foi interrompido para transmissão de uma notícia extraordinária: marcianos estavam desembarcando em diferentes pontos. Segundo o estudo clássico de Hadley Cantril, The Invasion of Mars, milhares de pessoas foram atingidas pelo pavor.

O comportamento coletivo é tendencialmente irracional, provocado por fator geralmente repentino, como uma faísca, uma explosão, um grito, uma falsa notícia alarmante, em situações sociais em que as referências estáveis de conduta, que são as normais e corriqueiras, não operam plenamente. As pessoas estão cercadas predominantemente por desconhecidos e os códigos de conduta são em boa parte improvisados no momento, de reciprocidades meramente reativas.

Quando um começa a correr, todos correm, mesmo sem saber o motivo. É essa característica sociológica do comportamento coletivo que impõe a prudência e a providência de que as situações de multidão sejam regulamentadas e condicionadas por marcos e instrumentos de referência de conduta e de segurança em situação de emergência: saídas largas e em número proporcional ao público presente, extintores de incêndio, especialistas em orientação de multidão, iluminação, etc.. São os lembretes das normas sociais interiorizadas, que essas situações invariavelmente colocam entre parênteses. O caso de Santa Maria, pelas informações até agora disponíveis, sugere que o alto índice de mortes foi agravado pela falta desses cuidados.

Quando do pânico decorrem mortes, as pessoas surpreendidas nos trajes, nos atos, no cenário e na circunstância "impróprios para morrer", numa cultura funerária como a nossa, tradicional, que pressupõe a morte em família, as sequelas sociais são imensas.

Cria-se a situação culturalmente anômala do ausente que não chega, do filho que não volta. A espera passa a regular a vida da família, numa sociedade em que já não há lugar para esperar.

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