O padre da igreja mais concorrida da cidade

Paulistano nascido no Ipiranga e criado na Penha, Michelino se esforça para trocar a fama de 'casamenteira' da Nossa Senhora do Brasil pela de 'paróquia da família'

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Desde que assumiu a Paróquia Nossa Senhora do Brasil, nos Jardins, no final de 2007, o padre Michelino Roberto tem procurado aliviar a fama dela. Ele quer que a "igreja casamenteira" - local preferido para os matrimônios da alta sociedade paulistana - seja conhecida como a "igreja da família". "O problema é que a cerimônia do casamento foi raptada pela indústria. O hollywoodiano e o espetacular acabam ofuscando o sentido sagrado", explica ele.

Casar ali não é barato. Só a taxa cobrada pela igreja está fixada em R$ 2,5 mil. Casar ali também não é fácil. "Já estamos com a agenda aberta em 2013", comenta o padre. "Mas, como sempre tem os que desistem no meio do caminho, com sorte alguém pode conseguir marcar antes." Por ano, são celebrados cerca de 500 matrimônios na Nossa Senhora do Brasil.

Obstinado em recuperar o sentido sagrado do casamento, Michelino começou chamando as empresas "do entorno" - músicos, floreiras, decoradores... - para uma conversinha. "Os enfeites não podem aparecer mais do que o nosso altar (o retábulo da igreja, aliás, foi feito em 1740 e é uma peça única de talha barroca paulista). A música não pode ser pop, porque igreja não é salão de baile", afirma. "E nada de noivas entrando ao som da trilha sonora de A Bela e a Fera. Isso é moda."

Outra medida foi reforçar o curso de noivos - obrigatório. Enquanto há igrejas nas quais a preparação é uma palestra de uma hora, na Nossa Senhora do Brasil os noivos têm de enfrentar um fim de semana de palestras. E ainda participar de pelo menos três encontros de casais, promovidos quinzenalmente pela Pastoral da Família. "Muitos acabam gostando e seguem participando depois. Estamos formando famílias verdadeiramente cristãs", comemora o sacerdote.

Os trajes também merecem cuidados. Cansado de se deparar com madrinhas esbanjando "decotes ousados", Michelino determinou que a igreja mantenha uma vasta coleção de echarpes, de todas as cores. "Se alguém abusa, a cerimonialista oferece uma peça", explica. Simples assim.

Biografia. O paulistano Michelino nasceu em 1966, no Ipiranga, e foi criado na Penha. Filho de um mecânico e uma costureira, teve infância simples e começou a trabalhar aos 15 anos. Foi office-boy e auxiliar administrativo. Mais tarde, colecionou diplomas: formou-se em Filosofia, História, Direito e Teologia. Ingressou no seminário aos 26 anos, coroando uma vocação que já sentia desde os 17. "Acredito que foi um chamado de Deus. Mas a religiosidade sempre esteve presente em minha família", diz.

Ordenado padre em 1996, começou trabalhando na Catedral da Sé. Dois anos depois, recebeu uma missão: iniciar um trabalho de recuperação da Paróquia São Vito, no Brás. "A degradação do bairro acabou culminando com o fechamento da igreja, por quase um ano. Comecei a celebrar missas, até que me mudei para lá", conta. Foi sua primeira paróquia, onde ele ficou até 2001. Nesse período, ele voltou a organizar a tradicional festa de rua que fez a fama da igreja - festa, aliás, que está sendo realizada agora, até o dia 19.

Entre 2001 e 2006, Michelino morou em Roma. Lá fez seu mestrado em Comunicação. E é lá que defenderá seu doutorado, cuja tese está sendo concluída. Pouco tempo depois de retornar ao Brasil, foi incumbido de nova tarefa: suceder padre Nadir José Brun no comando da Nossa Senhora do Brasil. Depois de 30 anos à frente da paróquia, Nadir foi aposentado, vítima de um AVC - ele continua vivendo na casa paroquial anexa à igreja e é assistido pelos três padres que atuam ali. "Perdi a conta de quantos casamentos celebrei", comenta Nadir, aos 83 anos.

Quando assumiu, Michelino achou que era hora de ter um cachorro. Anunciou numa missa. Logo depois, foi presenteado, por uma fiel, com um filhote golden. É o brincalhão Léo, seu grande companheiro, com quem gosta de passear, nos raros momentos de folga, no Parque do Ibirapuera.

Mas se engana quem pensa que ele deixou para trás os problemas da Paróquia São Vito. Por causa das dificuldades da comunidade do Brás e da própria afinidade de Michelino, decidiu-se que as duas igrejas seriam consideradas irmãs. O que significa que Michelino se divide entre a administração de ambas. Isso inclui atividades pastorais - como projetos sociais - e a organização da famosa festa. "Nesta época, tenho de ir lá com mais frequência do que o normal", comenta ele, que deixa um colega padre em tempo integral na São Vito.

Tese, aulas (ele dá cursos bíblicos na igreja), atendimento a fiéis (noivos ou não), missas, celebração de casamentos, organização da Festa de São Vito... A vida de Michelino é tão corrida que foram necessários três agendamentos para o Estado conseguir realizar esta reportagem. "Vocês não querem entrevistar outra pessoa?", tentou esquivar-se, no primeiro encontro, num misto de modéstia e preocupação com o escasso tempo.

Mesmo assim, antes de iniciar a conversa, ele teve de atender uma funcionária da igreja, com papelada referente à Festa de São Vito e um cheque para assinar. "É assim. Às vezes tenho de cuidar do terreno e não só das coisas espirituais. Por isso procuro me cercar de boa equipe, a fim de que sobre mais tempo para o espiritual, que eu acho mais importante."

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