O outro Nava

Mexer com mulher, em qualquer acepção do verbo, não fazia parte de seus hábitos, mas era disso que aquela ali, aos berros, o acusava. E em minutos estava armado o bafafá. No meio da roda, a moça esbravejava e disparava desaforos em direção ao senhor grisalho, de terno, o qual, impassível, sozinho à mesa, entremeava goles de cerveja à leitura do jornal, como se aquilo não fosse com ele. Vou chamar a polícia! - bramia a outra. Nem precisou fazê-lo, pois o alarido não tardou a atrair um soldado da Polícia Militar. O cavalheiro mal jogou um rabo de olho sobre a farda:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

- Traga outro mais graduado.

E assim começou um enredo de comédia em que sucessivos militares, de patentes cada vez mais elevadas, foram sendo rechaçados com as mesmas quatro palavras: traga outro mais graduado. Por fim apresentou-se um capitão. Quando sacou sua credencial, o senhor grisalho também puxou a dele, jogou-a sobre a mesa e comemorou, exultante como garoto que acaba de bater os demais nalgum joguinho - ganhei! -, enquanto o oficial, para delírio dos civis, se inteiriçava e batia continência.

Mesmo entre os habitués do Maletta, conglomerado de botecos no umbigo de Belo Horizonte, nem todos sabiam que o psiquiatra José Nava era coronel-médico da Polícia Militar. O irmão mais novo do futuro memorialista Pedro Nava era um sessentão boa-praça, culto e espirituoso, dono de uma prosa muito pessoal que de raro em raro pingava nos jornais da terra ou do Rio de Janeiro. Numa edição provinciana, tinha publicado um livro delicioso sobre Oscar Wilde, Uma tragédia antiflorentina, nunca mais relançado - caso também de Tatuagens e desenhos cicatriciais, obra científica vazada em texto prazeroso, em parceria com Meton de Alencar Neto.

Para a minha turma de frangotes da literatura, naquela altura dos anos 60, Nava era o José, não o Pedro, o talentoso amigo de Drummond que começara promissor poeta mas acabara, no Rio de Janeiro, fagocitado pela medicina. O escritor da família era José, com a vantagem, para nós, de estar ali à mão, disponível para papo e chope.

Uma coisa e outra, papo e chope, a gente ia buscar num boteco no térreo do Maletta. Chamava-se Lua Nova, mas para muitos acabou sendo o Lua Nava, pois era lá que imperava, noite após noite, aquela figuraça, com seus oclinhos de leitura na ponta do nariz, seu discreto prognatismo e sua fala meio entre dentes. Fala das mais fascinantes, achávamos nós com inteira razão. Fisicamente, José Nava podia até passar por um tio da gente, mas era abrir a boca e a história mudava. Ele era não apenas um admirável causeur como um refinado escritor que, àquela altura, vinha desfiando no varejo da imprensa uma prosa memorialística de primeira ordem. Não é impossível, aliás, que José Nava tenha sido memorialista bem antes do irmão famoso, pois este só em 1.º de fevereiro de 1968 se abancaria para iniciar com Baú de ossos suas monumentais memórias.

Quando o conheci, ele dava expediente no prosaico departamento de psicotécnica do serviço de trânsito de Belo Horizonte. "Sou psiquiatra até as 6 da tarde, e a partir daí, psicopata", dizia com graça e total exagero, em sua cadeira cativa no Lua Nava. Não era raro despedir-se anunciando que tinha aula de violino - eufemismo para encontros nem sempre furtivos com moços de boa ou de má família.

Seguia firme no violino quando, nos anos 70, teve recaída da tuberculose que na juventude o levara a procurar os bons ares de Minas. A família o carregou então de vez para o Rio de Janeiro. Pedro Nava, já celebridade, tentou enturmá-lo no Sabadoyle, a roda de escritores que se reunia em casa do bibliófilo Plínio Doyle. José não se animou. Tampouco buscou no Rio algo que se assemelhasse ao Lua Nava. Em algum momento, desinteressou-se até das aulas de violino. Teve morte discreta, em maio de 1994, aos 88 anos de idade.

Prometi a uma das irmãs, Ana, garimpar e reunir em livro os saborosos artigos que José Nava deixou espalhados pela imprensa de Minas e do Rio de Janeiro. Não vou esquecer a promessa.

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