O Natal de Pennacchi e Emendabili

Das várias e belas representações do Natal que há na cidade de São Paulo, a simbolicamente mais densa é a do belo afresco de Fúlvio Pennacchi (1905-1992) no presbitério da Igreja de Nossa Senhora da Paz (Rua do Glicério, 225), na Baixada do Glicério, erguida de 1939 a 1944. Cuidada pelos padres da Pia Sociedade Missionária de São Carlos, aquela é a igreja de referência dos migrantes e imigrantes. Muitos deles estariam condenados ao desânimo do desenraizamento e do desamparo, cidadãos de lugar nenhum, no vai e vem da vida, se não tivessem ali o seu caminho de Belém e nele a cálida pousada do espírito e a manjedoura do acolhimento.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2010 | 00h00

Pennacchi concebeu a natividade de Jesus sem os reis magos e suas ricas dádivas, que tornariam suspeito aquele advento num lugar de sofrimento e de privação. Tampouco quis ele antecipar-se à não menos suspeita exaltação dos pobres de ficção, como se houvesse virtude e santidade no descabido castigo da pobreza e da fome, da solidão e do silêncio. Como se a bondade divina tivesse que se manifestar na crueldade maligna. Enganos e enganações tão pouco teológicos. Muitas vezes há mais teologia numa obra de arte do que no sermão-comício do afã de poder, desprovido de engenho e arte, populista e antiprofético.

Ao chegar ao mundo, o Menino Jesus de Pennacchi foi cercado pelas famílias dos que trabalham e trabalham no campo, dos que colhem com o suor do rosto os frutos da terra, símbolos telúricos da eternidade da vida, do que não acaba, na dádiva do que não tem preço. Nascimento mediador que supera as mediações da coisificação do homem e inaugura o tempo possível da paz, da fartura e da alegria, o tempo da libertação. Contraponto, questionamento, desafio que enche de imaginação e de graça aquele canto sem graça da cidade. O artista tinha, aliás, intensa ligação cultural com o mundo camponês, tanto na Itália quanto aqui. Os camponeses foram seu tema frequente, como nos murais do Hotel Toriba, em Campos do Jordão, dedicados ao nosso caipira.

Na mesma perspectiva, no próprio cenário do nascimento de Cristo, o artista situou a crucificação cruenta e libertadora, a contradição da morte no momento da vida, o sacrifício derradeiro que instituiu a eternidade da esperança. Pediu a Galileo Emendabili (1898-1974) que esculpisse para o altar, para colocá-la diante do próprio crucificado, uma de suas mais belas e delicadas obras, a terna Madonna da Paz, que aperta sobre o peito um simbólico ramo de oliveira, diante da qual caminha o Jesus criança em direção à congregação dos fiéis, conjunto escultórico em pedra alvíssima, tocante, inesperada.

Pennacchi chegou a São Paulo em 1929 e Emendabili em 1923. Eram tempos difíceis. Os dois artistas foram dádivas da imigração à cultura paulista. Presentes do Natal eterno.

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