O meu Niemeyer

Cada qual tem seu Niemeyer predileto, e às vezes por motivos que nem dizem respeito à arquitetura, mas a razões do coração. O Copan, a catedral de Brasília, o Palácio da Alvorada, o museu pendurado sobre o mar em Niterói - até mesmo aquela mão sangrando no Memorial da América Latina tem seus admiradores. Para mim, poderia ser a Igreja da Pampulha ("hangar de Deus", disse o escritor Eduardo Frieiro, recorrendo ao poeta Paul Claudel), doces corcovas cuja sagração a pequenez liliputiana de um arcebispo adiou por 14 anos, só porque um comunista ousara desenhar uma casa de Deus que outro, Portinari, adornara com azulejos. Poderia ser também o Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, e tanta coisa de Brasília, cuja inauguração - vá a geriátrica mas orgulhosa confissão - assisti in loco aos 15 anos, levado por meu pai, naquele 21 de abril de 1960 que trago tatuado na memória.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h07

É outro, porém, o meu particular Niemeyer, e nem está entre os mais belos e notórios que engendrou a abençoada doidice de Oscar. Pela circunstância de havê-lo estreado, em março de 1956, nem que eu quisesse poderia desescolher como predileto o câmpus do Colégio Estadual de Minas Gerais (foto), outra encomenda de JK, então governador, ao arquiteto da Pampulha. Mais um maravilhoso delírio, plantado esse no cocuruto de uma colina no bairro belo-horizontino de Santo Antônio. Pena que hoje miseravelmente degradado, irreconhecível no criminoso abandono a que não relegaram nenhuma outra criação de Niemeyer.

JK era presidente recém-empossado quando aos 11 anos cheguei àquele câmpus assombroso - e assombroso talvez seja adjetivo anêmico demais para definir o impacto que significava, em meio a comportadas residências de classe média, um conjunto futurista, alvo e despojado, em que cada bloco figurava um objeto escolar. O prédio principal, pairando sobre pilotis, evocava uma régua T. A cantina? Um estojo - ou seria uma borracha?, a gente especulava. A caixa d'água, um giz apoiado na base menor. Nada era mais espantoso, porém, do que o prédio do auditório, figuração estilizada, moderníssima, de um já anacrônico mata-borrão. Com fachada de vidro, olho amendoado a contemplar a cidade, nosso auditório, em sua extraordinária, niemeyeriana leveza, parecia ter pousado ali suavemente, direto do futuro. Árvores, palmeiras? Nada disso, não se tratasse de um genuíno Niemeyer. Apenas um abacateiro esquecido pela motosserra.

Não cabe aqui falar do que foi para o menino de 11 anos instalar-se e crescer naquela paisagem meio lunar em que tudo (sem esquecer o rarefeito quadro de inspetores de disciplina, pois o colégio, então o melhor de Minas, vinha, com o mesmo pessoal, de um câmpus acanhado) incitava à experimentação da liberdade. Digo apenas que em termos de vivências a universidade, anos mais tarde, nada me apresentou que o Estadual já não me houvesse dado.

Não havendo muros, cavalos iam pastar na rala grama remanescente do quartel do Corpo de Bombeiros que existira no lugar. Um dia um aluno montou em pelo num deles e trotando subiu a rampa que levava às salas de aula, um braço apontando para o alto um sarrafo qualquer, em pose de d. Pedro I em quadro de Pedro Américo. Eu próprio, ameaçado certa vez de expulsão, me safei da guilhotina ao declarar, veemente, aos professores reunidos, para em seguida me escafeder: Reconheço meu erro, assumo a responsabilidade e me suspendo por 15 dias! Homem de palavra, passei as duas semanas seguintes no basquete e na piscina do Minas Tênis Clube, ali ao lado, antes de voltar impune às aulas.

Em março de 2006, do meu mocó paulistano, eu quis me incorporar às comemorações do cinquentenário do câmpus do Colégio Estadual, e ofereci um artigo que o Estado de Minas publicou. E foi tudo, acreditem, que alguém fez para marcar a efeméride. Autoridades, professores, alunos, ex-alunos - nada, ninguém. Quem sabe agora, mesmo sem data redonda, alguém mais virá dizer que não é só meu aquele maltratado, inesquecível Niemeyer?

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