Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

O médico que cuidou do 'último adeus' a 199 vítimas do acidente em Congonhas

Legista de 70 anos, o doutor Coelho recebeu a tarefa de informar aos parentes das vítimas como iam os trabalhos de identificação dos corpos

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Como pedir calma a quase 200 famílias que esperam, beirando o desespero, o momento de dizer um adeus inesperado e doloroso à pessoa querida? Durante dois meses em 2007 esse foi o trabalho exclusivo de Carlos Alberto de Souza Coelho, o doutor Coelho, legista de 70 anos, 42 dedicados ao Instituto Médico-Legal, que recebeu a tarefa de informar aos parentes das vítimas como iam os trabalhos de identificação dos corpos de seus familiares.

Caminhando pela Academia de Polícia Civil, no câmpus da USP, onde hoje ele dá aula a novos peritos, Coelho conta sua regra de ouro: “Não gerar falsa expectativa. Por mais dura que seja a realidade, é ela que tem de ser dita sempre.” A pressão era grande, as pessoas muito abaladas, e o papel do doutor Coelho era escolher bem o que dizer - “pedaço” ou “fragmento”, “despojo” ou “pessoa falecida”? Há grandes chances de que suas palavras fiquem gravadas para sempre na memória dessas pessoas.

Não bastasse a responsabilidade semântica diante do desastre, o doutor Coelho tinha as ocupações do ofício, desta vez multiplicadas: chefiar uma equipe de 70 médicos-legistas e auxiliares, reunidos no IML de Pinheiros, na zona oeste, onde a identificação foi realizada. A demanda era enorme: a unidade recebe, em média, de 1 a 3 corpos de pessoas carbonizadas por semana - acidentes de trânsito ou execuções do tráfico, em geral -, mas naquele dia foram 199. “As pessoas estavam compreensivelmente muito nervosas, passavam madrugadas ali, e eu tinha de explicar que levaria algum tempo até que pudesse se despedir de seu familiar. Me emocionei muito, muito. Como médico, tenho o compromisso de diminuir a dor. Mas o que eles sentiam era impossível de tratar. Batia uma sensação de impotência muito grande.”

Coelho lida com a morte desde 1975, quando entrou no serviço público, e costuma falar dela em termos científicos. Também descreve dessa forma suas reações ao relembrar a notícia do acidente. Aguardava a vez na sala de espera do dentista - “um molar quebrado, e molar quando dói é terrível” - quando viu pela TV o fogo em Congonhas. A senhora ao lado dele o encarou: o senhor está passando mal? “Devo ter ficado pálido com o susto. Ou seja: esse impacto teve uma repercussão no meu organismo a ponto de outra pessoa perceber. Mas a gente é treinado para não perder o raciocínio. Essa é a diferença. Imediatamente, construí mentalmente o impacto que teria no IML.” Coelho pediu ao dentista - que vinha a ser seu filho mais novo - que desse um jeito de estancar a dor no molar, e voou ao IML. O primeiro corpo chegou às 5 horas de 18 de julho, e o trabalho de identificação só cessou no começo de setembro.

Às vezes, algum familiar buscava nele algum conforto, e o doutor Coelho abandonava, um pouco, sua exatidão científica de médico legista. “Costumo dizer, primeiro, que a grande vantagem em relação à morte é que a gente não sabe quando vai acontecer. Senão ficaríamos vivendo a morte, e não a vida”, diz. “E depois falo que há dois caminhos: se a pessoa tem fé em algo posterior, esse é o momento obrigatório de transição a essa outra fase. E, se não acredita em nada, eu digo que acabou tudo, a dor, o sofrimento, as responsabilidades.” Mais do que isso não dá, diz Coelho. Perderia a objetividade, poderia parecer “enganação”.

 

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