Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

O legado de Burle Marx à vista em São Paulo e nos cinemas

A menos de um ano das comemorações dos seus 110 anos de nascimento, maior paisagista brasileiro é lembrado em documentário e em exposição no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE)

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Roberto Burle Marx nasceu em plena Avenida Paulista, mas se tornou conhecido por obras em outras capitais, especialmente no Rio. A menos de um ano das comemorações dos seus 110 anos de nascimento, o maior paisagista brasileiro é lembrado em documentário e exposição, ambos com lançamento ainda em 2018.

Em São Paulo, a variedade de plantas, formas e materiais explorada por Burle Marx está presente em jardins diversos, de uma capela a fundações culturais e edifícios. Um deles é o Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), localizado nos Jardins, na zona sul, que é uma parceria com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

“Quando se fala de Burle Marx, também se fala de alguém que está na origem de um museu de ecologia. O patrimônio do MuBE é o seu prédio e o seu jardim”, aponta Cauê Alves, curador do museu. “Ele é talvez um dos grandes nomes da arte brasileira, não só como o (Oscar) Niemeyer (na arquitetura), mas no mesmo nível de um João Gilberto.”

Em dezembro, o MuBe abre a exposição “Burle Marx: Arte, Botânica e Paisagem”, que deve reunir pinturas, esculturas, amostras de vegetais e maquetes de projetos. Desde a inauguração, em 1995, o local perdeu parte das espécimes de 25 plantas, como um coqueiro tombado após ser atingido por um carro.

A ideia também é destacar outros jardins de Burle Marx na cidade, como o da Fundação Ema Klabin, localizada em frente ao museu e que integrará a mostra. “Procuramos respeitar o projeto original, mas muitas espécies tiveram que ser substituídas devido ao sombreamento maior das árvores adultas. As modificações promovidas por Ema Klabin ao longo de sua vida também são preservadas”, explica Paulo de Freitas Costa, curador do espaço.

“Filme Paisagem - Um Olhar Sobre Roberto Burle Marx”, do cineasta João Vargas Penna, estreia dia 15 de novembro no cinema. A obra faz um mergulho sensorial no sítio do paisagista, em Guaratiba (RJ), e em outros projetos icônicos que participou, como o calçadão de Copacabana, no Rio. “O interessante dos projetos de Burle Marx são sazonais, os elementos mudam ao longo dos meses, às vezes tem uma única flor, às vezes  está todo florido”, explica o diretor.

O paisagista vivia em uma permanente busca por novos elementos, segundo o ex-sócio José Tabacow, com quem trabalhou durante 17 anos. “A gente sempre procura usar elementos da paisagem local, para trazer para dentro do jardim”, aponta.

Dentro desse cenário, trabalhar projetos de espaços públicos era o que mais atraia Burle Marx. “A sua principal característica era não cair em uma fórmula, ele não tinha medo de propor coisas novas, quando ele propunha uma coisa que me parecia descabida, exagerada, tinha que ter um argumento muito forte para demovê-lo.”

Tabacow ressalta, ainda, que o paisagista influenciou muitos colegas pela extremo envolvimento com plantas. “Não era só a técnica de cultivo, mas de conhecer os ciclos ecológicos, os locais de onde vieram, as associações possíveis de fazer. Essa parte, o Roberto desenvolveu como ninguém.”

Com tamanho interesse, o paisagista se aproximou da professora de Botânica da USP Nanuza Menezes, com quem participou de expedições por diversas regiões do País. “Ele era tão sensível, via a arquitetura da planta. As expedições eram principalmente para ver como a planta vive na natureza”, explica. “Eu subia em um morro, e ele gritava lá de baixo: ‘Nanuza, tem alguma coisa nova aí?’; eu respondia que sim, e ele gritava “E eu tenho? Se não, eu quero!”

Burle Marx tem diversos projetos na capital paulista

Em São Paulo, além de Paulo Mendes da Rocha, Burle Marx colecionou diversas parcerias de grande expressão, como com os arquitetos Rino Levi e Gregori Warchavchik. Uma delas é a Capela Cristo Operário, no Alto do Ipiranga, na zona sul, que tem murais de Alfredo Volpi, Yolanda Mohalyi e Geraldo de Barros. O local costuma abrir nas terças-feiras e nos fins de semana.

Outro exemplo é o Parque Burle Marx, no Panamby, na zona sul, antiga Chácara Tangará, em parceria com Oscar Niemeyer. De toda o paisagismo, o de autoria de Burle Marx é exclusivo do jardim xadrez, que mistura duas espécies de grama para lembrar um tabuleiro, além de um espelho d’água e um mural. O espaço está em restauro desde setembro.

O paisagista também foi responsável por projetos de recuperação, como o do Parque Tenente Siqueira Campos (Trianon), na Avenida Paulista, que esteve em decadência de 1929 até 1968. Perto dali, também na Avenida Paulista, fica o Parque Mario Covas, local onde o paisagista viveu até os quatro anos e, desde 2010, transformado em espaço público.

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