O Largo da Concórdia

Chico Alves viera a São Paulo para apresentar-se em programas da Rádio Nacional. Naquele sábado, 27 de setembro de 1952, acompanhado de Rago e seu Regional, cantou, no Largo da Concórdia, alguns de seus muitos sucessos. Era homenagem a seus fãs do bairro do Brás. A caminho da Via Dutra, no retorno ao Rio, o cantor fez ali uma parada para o show, às 14h.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2012 | 03h03

O Largo da Concórdia tivera feira de mulas, no século 19, abrigara circo e parque de diversões. Era agora um lugar de concentrações populares, perto das movimentadas estações do Norte e do Brás. Mutilado pela construção do Viaduto do Gasômetro, em 1949, perderia aos poucos a nobreza dos tempos áureos do bairro. Mas ainda estava lá o Teatro Colombo, onde Pietro Mascagni regera uma de suas óperas em tempos idos. O Brás mantinha a aura da época das serestas e da composição famosa de Alberto Marino, Rapaziada do Brás. Não estavam longe os corsos de carnaval na Avenida Rangel Pestana. O bairro vivia os últimos tempos de italiano e operário, das cadeiras na calçada para conversas das famílias depois do jantar.

Já existia aí por 1850. No fim de 1865, dera-lhe a Câmara Municipal o nome de Largo da Concórdia, tributo à cidade argentina onde se concentraram e de onde partiram para a luta as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, meses antes. Continua da Concórdia apesar da discórdia, há alguns anos, com os camelôs que o haviam ocupado.

A apresentação de Chico Alves foi um evento de fim de época, além de ser o seu último evento: ele morreria carbonizado, horas depois, na Via Dutra, em Pindamonhangaba, quando seu carro, ao se chocar com um caminhão que vinha na contramão, pegou fogo. Significativamente, cantou o fim de épocas. Gravara anos antes Seu Julinho vem, apologia de Júlio Prestes, presidente eleito da República. Seu Julinho não veio, cassado antes da posse pela Revolução de outubro de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Um ano antes de morrer, Chico Alves gravara Bota o retrato do velho (Bota no mesmo lugar) para celebrar o retorno de Vargas ao poder, em 1950, cujo suicídio em 1954 daria início ao fim da Era Vargas.

Começou sua despedida de São Paulo no Largo da Concórdia cantando Caminhemos: "Não, eu não posso lembrar que te amei, eu preciso esquecer que sofri." Naquela época de amores impossíveis, ou ao menos difíceis, amava-se sofrendo. Nem o Carnaval escapava. Em Confete, que Chico Alves também cantou naquela tarde, a ausência estava lá, poeticamente: "Confete, pedacinho colorido de saudade".

Em seu enterro, no Rio de Janeiro, o povo cantou Adeus: "Quem fica, também fica chorando, com um lenço acenando, querendo partir também." Em São Paulo, dois dias antes, sem o saber, Chico cantara o réquiem do antigo Largo da Concórdia, o largo do povo do Brás.

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