''O Kilt estava mais para agência de casamento''

ENTREVISTA - Tânia Maciel, empresária

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

''Garotas de programa não são tão ruins quanto craqueiros e traficantes'', diz dona de boate que deve ser desapropriada

Dona da boate Kilt, há 40 anos um reduto de garotas de programas na Rua Nestor Pestana, região central de São Paulo, a empresária Tânia Maciel recebeu incrédula a notícia da iminente desapropriação do imóvel - que também é dela. Outros quatro na vizinhança também devem ser desocupados para possibilitar a integração entre o teatro da Sociedade de Cultura Artística, atingido em 2008 por um incêndio, e a Praça Roosevelt. Tânia contratou o advogado Roberto Kalil, especialista em desapropriação, para conseguir o que considera "um preço justo" pelo prédio. Até agora, diz, não foi notificada.

O que seria um "preço justo"?

Inaugurei o Kilt em 27 de julho de 1971. Eu tinha 50 m². Hoje, são 550 m². De lá pra cá, investi capital pessoal e financeiro ali. No começo, eu era porteira, recepcionista, caixa e garçonete. Emprestava roupas minhas para as meninas para convencê-las a voltar no dia seguinte. Fazia reformas de dois em dois anos. Consertei até a calçada. Fiquei surda, por causa da altura do som, e tive problema de coluna de tanto usar salto. Tudo isso deve entrar na conta.

A senhora conversou com os diretores do Cultura Artística?

Tive uma reunião há pouco mais de um ano e, na ocasião, eles me disseram para não me preocupar porque o Kilt seria preservado. Eu sei que as pessoas mentem nessas horas, mas o que eu não entendi até agora é como se desapropria um imóvel para favorecer uma fundação - algo que não é público.

Acha que existe preconceito?

Sempre houve em relação ao Kilt. E, no entanto, aquilo era um ponto de encontro como qualquer outro. Estava mais até para agência de casamento. Você não sabe o número de garotas que se casavam com pilotos de F-1 e me mandavam fotos da família na frente do Palácio de Buckingham. Posso garantir que garotas de programa não são tão ruins para a sociedade quanto os craqueiros e traficantes que frequentam aquela região.

A senhora chegou a ser presa.

E indiciada quatro vezes. Isso faz uns 15 anos, quando havia um delegado que fazia boletim de ocorrência em latim e citava trechos da Bíblia. Ele jurou que acabaria com as casas de garotas de programa na cidade, até que um dia, em uma audiência, viu que o juiz e boa parte das pessoas no tribunal me conheciam, e muito bem.

Para onde as garotas de programa que saem da Rua Augusta estão indo?

Provavelmente para aquela esquina da Fernando de Albuquerque com a Bela Cintra, ou para a Haddock Lobo.

Por que o Kilt ficou famoso?

Já namorei até presidente da República. E a casa era frequentada por muita gente famosa: de Michael Douglas a PC Farias e Gene Simmons, do Kiss.

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