O jovem na rua

Por que eles protestam? Talvez a resposta mais imediata seja: eles cansaram! Na última semana as manifestações tomaram conta do País e boa parte dos jovens e dos não tão jovens saiu às ruas para pedir mudanças. O que começou em São Paulo como movimento isolado, por causa de 20 centavos de acréscimo no preço das passagens dos ônibus, ganhou motivos e contornos diversos e uma dimensão que não era vista há pelo menos 20 anos no Brasil.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h06

Sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, jornalistas confessaram-se perdidos. Também fiquei! Um movimento horizontal, pouco uniforme, sem lideranças claras, que se articula rapidamente pelas redes sociais e rechaça cores partidárias. As manifestações ganharam corpo e, na quinta-feira, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em quase 400 cidades e algumas expressões mais radicais, que eram até então absoluta exceção, começaram a aparecer em meio à grande onda pacífica que dominava o tom da mobilização.

Ao serem questionados sobre as razões de marchar nas principais avenidas das maiores cidades do País, os jovens deram respostas múltiplas e, talvez, incontáveis: direito de protestar, violência da polícia, PEC 37, corrupção, impunidade, superfaturamento das obras públicas, conchavos políticos, injustiças sociais, passe livre, gastos exorbitantes com a Copa de 2014, baixo investimento em infraestrutura e em melhorias concretas para população, impostos excessivos, mobilidade nos grandes centros urbanos, transporte público precário, entre outros tantos motivos mais ou menos particulares.

A visibilidade proporcionada pela Copa da Confederações e a vizinhança de uma crise econômica, que parece maior do que avisaram a população, parecem ser ingredientes importantes para ter dado mais consistência ao caldo das mobilizações populares. Nem o cancelamento do aumento das passagens de ônibus, anunciado pelas maiores prefeituras, foi suficiente para diminuir a temperatura dos protestos.

Parece haver uma mudança de um estado de apatia crônica dos jovens (que não deixa de ser uma forma de protesto, uma espécie de resistência passiva) para uma agitação ainda sem foco muito definido (talvez uma insatisfação geral), uma forma de reação mais ativa, que cresce na medida que os outros também se movimentam. Não dá pra ficar de braços cruzados, "vendo a banda passar", nesse momento histórico, quando eles estão cansados de tudo e de todos.

A escola está chata, a faculdade está fraca, o emprego é monótono, o salário é baixo, o atendimento médico é precário, demoro horas para chegar em casa e no trabalho, o trânsito é caótico, o transporte é cheio e ruim, nunca tenho dinheiro para comprar o que quero, a violência cresce perto de casa, as perspectivas de futuro não são lá muito animadoras, estou indignado com que eu vejo e ouço sobre os políticos, corrupção e impunidade. Em resumo: ando de saco cheio! Mas o que fiz até aqui para mudar? Quase nada! No momento em que tudo isso vem à tona e percebo que outros sentem e passam por situações semelhantes levo desejos e frustrações para o meio da rua e os protestos se tornam uma forma efetiva de manifestar minha insatisfação, de tentar dizer um "basta".

Os avós que protestaram nos anos 60 contra a ditadura e os pais que marcharam nos anos 80 à favor da democracia têm motivos de sobra para se sentirem nostálgicos e apoiarem seus filhos e netos.

Grandes movimentos populares acompanharam mudanças históricas importantes no Brasil e no mundo. Mas sem foco definido, sem lideranças estabelecidas, com tantos motivos para protestar, sem particularizar objetivos, sem pragmatizar caminhos, como mudar o que não funciona no País? Talvez o grande desafio, para os próprios jovens, seja entender que rumo dar às manifestações que nasceram de forma nova e singular. Sem isso, o movimento corre o risco de se diluir, rachar e abrir espaços para radicalizações que podem não expressar a vontade da maioria.

O momento, em que o governo também parece atônito com as dimensões do que acontece, é propício ao diálogo e a novas proposições. Mas quais são elas e quem vai fazê-las?

Na quinta-feira, a primeira vítima fatal dos protestos caía atropelada em Ribeirão Preto (SP) por um Land Rover que tentava furar o bloqueio imposto pelos manifestantes. Outro manifestante morreu em Brasília ao despencar de um viaduto. Carros e prédios públicos foram depredados e incendiados, jornalistas intimidados porque trabalham para grandes empresas de comunicação, lojas pilhadas, agressões desnecessárias a policiais e a outros manifestantes. Como evitar esses excessos no calor do momento?

Normal estar insatisfeito! Ótimo se mobilizar e tentar fazer a realidade mudar, com o apoio e participação dos outros. Mas, sem apontar o movimento para uma direção e pensar em saídas, esse junho de 2013 pode cair em um vazio absoluto, em paralisia, ou pior ainda, pode dar oportunidade para radicais e aproveitadores ganharem espaço e se exibirem, reproduzindo nas ruas exatamente aquilo que tanto se critica em nosso Congresso e na nossa política.

* JAIRO BOUER É PSIQUIATRA E TRABALHA EM SAÚDE E PREVENÇÃO.

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