Sérgio Castro / Estadão
Sérgio Castro / Estadão

O jesuíta número 1 do marco zero de SP

Carlos Alberto Contieri mantém atuante a presença da congregação na história paulistana

Edison Veiga, O Estado de São Paulo

21 Maio 2017 | 03h00

Foi pelo coração que o padre jesuíta Carlos Alberto Contieri chegou a São Paulo e passou a ocupar o mesmo lugar que já foi de José de Anchieta, o fundador de tudo isso aqui. Pároco do Pátio do Colégio há 12 anos, ele jamais imaginava comandar uma igreja – a vida toda se preparou para dar aulas.

“Tive um princípio de enfarte que prejudicou bastante. E uma doença nas coronárias. Precisei vir para São Paulo para me tratar”, conta ele. Só a angioplastia não bastava. Contieri foi operado e, por causa do tratamento, obrigado a residir na capital paulista por cinco meses.

Paulista de Valinhos, o sacerdote ordenado em 1993 estava com a vida toda organizada em Belo Horizonte, onde funciona a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, outrora conhecida como Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus. Ali dava aulas, pesquisava, auxiliava a direção. “Geralmente, um jesuíta designado para a formação morre ali”, comenta ele. Para tanto, havia se preparado. Foram dez anos, desde meados da década de 1990, estudando na Itália, na Bélgica e em Israel.

De modo que em 2005, quando veio para São Paulo se tratar no Hospital do Coração, tinha a certeza de que era apenas por alguns meses. “Cinco meses”, ressalta. Na época, entretanto, o padre responsável pelo Pátio do Colégio estava de saída e o provincial dos jesuítas viu em Contieri um pároco-tampão. 

Um jesuíta nunca diz não a seus superiores. A obediência hierárquica é um dos pilares da ordem, fundada oficialmente em 1540 pelo basco Inácio de Loyola. “Eu não tinha pretensão nenhuma de ficar”, admite. “Mas os cinco meses se passaram e depois disseram que não podiam mais me tirar.”

Foi preciso mandar trazer a mudança. Contieri assumiu a paróquia, a direção do museu do Pátio do Colégio, a chefia da comunidade de padres jesuítas onde mora, no 7.º andar do edifício do Colégio São Luís, na Avenida Paulista, e o comando do museu mantido pela companhia em Embu das Artes – bem como a criação de um projeto social ali que atende a 200 crianças. “Era um momento em que o centro de São Paulo estava se recuperando. Foi um momento interessante, pude participar desse movimento de valorização”, diz ele.

Celebrar ali é um tanto peculiar. Como Contieri ressalta, a igreja do Pátio do Colégio é uma paróquia em que os fiéis não moram perto. “Aliás, ninguém mora perto daqui, não é?” Ele celebra ali todos os dias ao meio-dia. E, aos domingos, às 10 horas. “É quando vem o maior número de católicos. Pessoas assíduas que saem de longe: de Santo Amaro, de Moema, da Aldeia da Serra, de Alphaville, de Jundiaí, até de Campinas”, enumera. 

Contieri imaginava que o barulho da metrópole e o tempo necessário para os deslocamentos – de sua casa, na Paulista, até o Pátio, ele vai às vezes de carro, às vezes de metrô – fossem um impeditivo para reflexões acadêmicas e exercícios intelectuais. “Adaptei-me e agora penso que é o contrário. Curiosa e paradoxalmente, o mundo da cidade e as perguntas das pessoas da cidade fizeram com que minha vida intelectual tivesse muito mais desafios e fosse muito mais frutuosa do que no tempo em que eu estive dedicado exclusivamente aos estudos. Aqui tenho contato com uma variedade de pessoas impressionante”, afirma.

Neste maio de 2017, ainda pôde comemorar os 150 anos da volta dos jesuítas a São Paulo – fundada por um grupo de deles, em 1554, exatamente ali. “Já me sinto paulistano, profundamente integrado, comprometido. Não me sinto incomodado.”

Uma saga que mistura religião, educação e futebol

A mais antiga instituição europeia a chegar à área que se tornaria São Paulo, a Companhia de Jesus imprimiu marcas presentes até hoje na cidade. Em 1554, seus religiosos celebraram a missa que marcaria a fundação da vila de São Paulo e criariam um colégio para catequizar índios. Em 1640, por desavenças com os paulistas, acabaram expulsos por 13 anos. Já em 1759, a companhia acabou banida de todo o País. 

A volta ao Brasil ocorreu em 1843, por Santa Catarina. O retorno dos jesuítas às terras paulistas foi exatamente há 150 anos, em maio de 1867. Em Itu, no interior, eles fundaram o Colégio São Luís, o mesmo que depois seria transferido para a Avenida Paulista.

Não é o único legado jesuíta em São Paulo. A cidade onde hoje vivem cerca de 50 religiosos da companhia conta com igrejas, instituições de ensino e museus ligados à instituição. 

Formação integral. Os jesuítas, em suas instituições de ensino, sempre prezaram a formação integral do cidadão, do ser humano. “Quando volta ao Brasil, no século 19, a companhia traz algo que era inovador”, comenta o padre Geraldo Lacerdine, diretor de Humanística do Colégio São Luís. “Defende a formação integral do ser humano, colocando arte e esporte no mesmo patamar da ciência. Ou seja: já era um pensamento unificado, não fragmentado.” 

Por causa disso, são muitas as imagens que mostram padres e alunos do São Luís jogando futebol, em uma época em que a prática do esporte não era comum, sobretudo em ambientes escolares. 

Há registros inclusive de que jesuítas já praticassem o esporte – ou alguma versão rudimentar – em Itu antes mesmo de Charles Miller ter introduzido oficialmente o esporte, e antes daquela partida que é considerada a primeira no País – em 14 de abril de 1895, quando o São Paulo Railway, time de Miller, venceu a Companhia de Gás por 4 x 2.  No livro Pontapé Inicial para o Futebol no Brasil, Paulo Cezar Alves Goulart conta que na década de 1880 padres jesuítas foram à Europa em busca de atualizações pedagógicas. Na volta, trouxeram duas bolas de capotão. Com regras simples, a atividade acabou conhecida como “bate-bolão”.

 

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