O jardineiro que enfeita Congonhas

Eifuku Nakao criou um jardim em terreno antes tomado por entulho, do lado do aeroporto

Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

Há 32 anos, Eifuku Nakao, de 80, teve a ideia de plantar um abacateiro no terreno na frente de sua casa, na Rua Almirante Souza Braga, do lado do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo. Os anos passaram, e a árvore ganhou a companhia de um pinheiro, várias mangueiras, cerejeiras, rosas, lírios, cactos e até pássaros. O aposentado fez um enorme jardim onde antes era um ponto de depósito de entulho.

"Isso é para eu conservar a saúde", diz o aposentado, conhecido pelos vizinhos como "seu Ernesto". "Tem gente que não acredita, mas acabei com três enxadas e uma cavadeira mexendo aí dentro." Nakao também fez intervenções de engenharia. Utilizou o entulho que estava amontoado no terreno para deixar a área plana e limpa. Depois, cavou valas para a água da chuva correr sem estragar as plantas. Por fim, fez escadas de madeira em um barranco.

Mas o grande trunfo do aposentado está na técnica que desenvolveu para espalhar as plantas pelo terreno. "O pessoal sempre pergunta: "De onde vem tanta muda?" Eu falo que não é muda, nem semente. É tudo galho espetado. Sou o maior espetador de galho."

"Nome mesmo (das plantas), não sei quase nada. Eu só espeto", brinca seu Ernesto. "Ali tem papaia. É bom pra passarinho comer", diz. Para evitar que a criançada do bairro tire as frutas do pé, o aposentado plantou espécies espinhosas em volta.

Futuro. O trabalho de Nakao pode dar resultado em breve. A Associação dos Moradores do Entorno do Aeroporto de Congonhas (Amea) planeja que a área verde de quase 23 mil metros quadrados vire um parque. O projeto deve sair de um trabalho em conjunto da Amea e a Empresa de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). A ideia é preservar as árvores de Nakao e instalar uma pista de cooper, parquinho e quadra poliesportiva.

"Podemos buscar apoio da iniciativa privada, principalmente das empresas que têm a ver com a região, como as companhias aéreas", afirma o vice-presidente da Amea, Edwaldo Sarmento. O comerciante Luiz Carlos Moreira, de 48 anos, aprova a ideia. "As árvores ajudam a abafar o ruído dos aviões."

Vida. Seu Ernesto nasceu em Lins, no interior de São Paulo. Filho de japoneses, passou a adolescência em Okinawa, onde serviu no exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. "Tinha 16 anos. Fazia buraco para os soldados. Ainda tenho machucados por causa de estilhaços", lembra. De volta ao Brasil, Nakao trabalhou na lavoura do sogro em Lins.

Na capital paulista, Nakao trabalhou no Ceasa e em uma loja de material de construção antes de se aposentar em 2003. Teve seis filhos - "todos formados", como frisa o aposentado - e nove netos.

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