Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

O Jardim Europa nasceu da elite para a elite

Inspirado pelo sucesso de vendas do Jardim América, um comerciante e morador da região resolve lotear quase tudo de seus 900 mil metros quadrados e convida outros endinheirados a morar em "seu" bosque

O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2015 | 18h55

Os Jardins nasceram no começo do século XX, a partir de um então revolucionário projeto urbanístico e arquitetônico de moradia da Cia. City, como é conhecida a mais antiga empresa urbanística em funcionamento em São Paulo. O primeiro deles foi o Jardim América, um sucesso de vendas. A fama de bairro de gente rica, com atmosfera familiar e pouco habitado deu origem a uma série de outros parecidos e que seguiam o mesmo estilo: casarões em grandes terrenos e paisagem fortemente ajardinada - no espaço público e também no privado. 

Na mesma região, os jardins Europa, Paulistano e Paulista nasceriam pouco depois, quando outras companhias construtoras decidiram "imitar" a City e investiram no conceito de bairro/cidade-jardim trazido por ela ao Brasil e inspirado nas ideias defendidas pelo urbanista inglês Ebenezer Howard (1850-1928). Em 1898, ele havia publicado um livro chamado Garden Cities of To-morrow, que ecoa até hoje no mundo inteiro e no qual descrevia justamente uma cidade em que as pessoas conviviam em harmonia com a natureza. 

Os projetos de urbanização derivados das ideias de Howard, ou que seguiam seus preceitos, pretendiam, por princípio, respeitar a topografia original, preservando suas irregularidades e sinuosidades na abertura das ruas e sem tentar "corrigir" o terreno. A ideia era integrar as melhorias urbanas ao paisagismo, de um jeito harmônico. 

1. Antes de tudo

No fim do século XIX a chácara que daria origem ao Jardim Europa pertencia à família Ferreira da Rosa. Em 1900, essas terras foram vendidas. O último proprietário antes da abertura do loteamento foi o português Manoel Garcia da Silva, que era dono de uma loja famosa, uma espécie de bazar ou armarinho, que vendia importados. O nome era Loja do Japão e ela ficava na Rua São Bento. Depois de algum tempo, Silva decidiu abrir ruas, dividir a propriedade em terreno e vende-los. Continuou morando no mesmo lugar.  

2. Depois da América, a Europa

Com o sucesso de vendas do Jardim América, o engenheiro-arquiteto carioca Hipólito Gustavo Pujol Jr. foi contratado para criar o Jardim Europa, em 1922. O novo bairro foi loteado em uma área pantanosa de 900 mil metros quadrados. Eram 49 quadras. 

3. Arborização

A arborização era composta de ipês, sibipurinas, flamboyants, jacarandás e palmeiras. Algumas das ruas foram batizadas com os nomes de países e de cidades do continente europeu. Atualmente, o bairro é um dos mais valorizados da cidade, com grandes residências de alto padrão e estabelecimentos culturais em suas principais avenidas. 

4. Frente: 120 metros; fundo: 40 metros 

Os 900 mil metros quadrados foram convertidos em 49 quadras, como lotes de 120 metros de frente, por 40 metros de fundo. Entre eles, haveria bosques e as ruas teriam nomes de cidades e países europeus. Para viabilizar o loteamento, e como seu principal negócio (a Loja do Japão) estivesse com dificuldades financeiras, Manoel Garcia Silva convidou a ser seu sócio o maior credor de suas dívidas, os irmãos Klabin. Deu certo.

5. Da elite para a elite

Este anúncio, dos tempos do lançamento imobiliário original, foi publicado em 11 de novembro de 1928 e mostra como o local nasceu "bairro de elite a oito minutos do centro". A propaganda convida a um passeio no bosque em "saudável" bairro. O proprietário Manuel Garcia da Silva vende palacetes e terrenos.

6. Paróquia São José do Jardim Europa

A igreja do bairro foi construída e inaugurada em 1930, na rua Dinamarca. A primeira missa ocorreu no dia 19 de março, quando ela já estava quase pronta. No dia 30, foi celebrada a primeira comunhão de quarenta crianças do Itaim. 


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