''O jardim está coberto de lama''

"Há dez minutos meu filho ligou do celular de um vizinho, porque o dele não está funcionando, para dizer que encontraram o corpo de uma criança no jardim de casa. Desde meia-noite, quando acordou com o barulho do temporal forte, ele ainda não parou de trabalhar para escoar a água que entrou na sala e tentar ajudar as vítimas na redondeza. Uma dessas pessoas é irmã de uma grande amiga que está aqui no Rio, comigo. Ela desapareceu e, segundo meu filho, ninguém sabe informar quando foi vista pela última vez. A água que invadiu a casa veio de um riacho que passa a 5 metros da cozinha. Levou móveis, virou o sofá, arrebentou a porta de correr de vidro e encheu a piscina de pedras e pedaços de troncos. Pelo que meu filho disse, o jardim está coberto de lama, irreconhecível, e o lago não existe mais. E a chuva não parava. Em dado momento, a água atingiu um nível tão alto que ele precisou subir no telhado. Eu nunca ouvi falar de algo com tamanha violência naquela região. O caseiro caiu desacordado, foi levado pela enxurrada por mais de 1,5 quilômetro. Recobrou os sentidos sem saber onde estava. Nós tínhamos cerca de 25 bichos, entre patos, galinhas e marrecos. Até o cachorro, um rottweiler, desapareceu."

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2011 | 00h00

A artista plástica Lygia Torres, que mora no Rio e tem uma casa de veraneio em Teresópolis, conta a conversa que teve com o filho pelo telefone. A casa fica em um terreno de 3 mil m² e foi construída há 30 anos, no bairro da Posse, um dos mais atingidos pela chuva.

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