Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

O inquilino mais querido da cidade

Sócio do Belas Artes, cinema que ameaça ser despejado na Consolação, André Sturm diz que está otimista e tem esperança de salvar reduto dos cinéfilos de São Paulo

Bruno Paes Manso, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2011 | 18h46

SÃO PAULO - Todos os dias, há três anos e meio, um filme melancólico com título esquisito roda nos projetores de uma das seis salas do cinema Belas Artes, na Avenida Paulista com a Consolação. Na fita, Medos Privados em Lugares Públicos, do diretor francês Alain Resnais, recordista absoluto em longevidade na capital, mostra a busca de seis pessoas solitárias por afeto, amizade e paixões. Sem que consigam alcançá-los.

 

Mesmo em cartaz há tanto tempo, não se pode dizer que o filme é um sucesso estrondoso. Menos de 200 mil pessoas o assistiram. Tropa de Elite 2, o maior público da história do cinema brasileiro, foi visto em dois meses por mais de 10,7 milhões. Enquanto o coronel Nascimento provocou na audiência um comportamento de manada, Medos se alastrou vagarosamente, recomendado de boca em boca, sem divulgação, estabelecendo com a cidade uma relação única. Tornou-se quase necessário. Domingo passado, as 85 cadeiras da sala que passava a obra no Belas Artes estavam ocupadas.

 

A percepção e a paciência para compreender a demanda pelo filme, sem a gana pelo lucro estratosférico e com a convicção da relevância da fita para o público paulistano, são responsabilidades do administrador de empresas e cineasta André Sturm, de 43 anos. Na semana passada, depois de anunciar o despejo iminente do cinema fundado em 1943 no mesmo endereço, Sturm percebeu que o cuidado com as escolhas havia acertado o alvo. Em poucos dias, os protestos começaram a ganhar corpo. No Facebook, mais de 30 mil pessoas entraram na comunidade que se posicionava contra o fechamento do Belas Artes. O abaixo assinado virtual já tinha 11 mil nomes. Espontaneamente, a sobrevivência do cinema Belas Artes havia se tornado a mais animada e numerosa causa política da cidade. "Achei legal porque a movimentação começou com jovens de 20 anos. Na passeata da Paulista, a faixa etária era a mesma. A força da reação, que agora pode ajudar a reverter o despejo, mostra que o Belas Artes foi abraçado pela cidade. Estou otimista."

 

Sócio do cinema desde 2003 com a O2, do cineasta Fernando Meirelles, Sturm mostra-se discreto, como costumam ser os que trabalham nos bastidores das tarefas importantes que fazem as engrenagens da cidade rodar. Desde 1986, ele é um dos principais nomes por trás das programações de cinemas alternativos que enriquecem a diversidade cultural e fazem a fama da cidade. "São Paulo é diversidade. Pode haver 500 cantinas italianas, mas a gastronomia é reconhecida também graças aos dois ou três tailandeses."

 

Garimpo. Nascido em Porto Alegre, mas criado entre Santa Cecília e Campo Belo, Sturm ingressou aos 17 anos no curso de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e, dois anos depois, assumiu a programação e gestão do Cineclube da GV. Garimpava filmes raros entre as latas empoeiradas das distribuidoras da cidade. Pouco depois do fim do curso, em 1989, aos 22 anos, tornou-se programador da Sala Cinemateca.

 

Um ano antes, em uma viagem ao Festival de Berlim, na Alemanha, onde foi só com dinheiro da comida e hospedagem, trouxe na bagagem quatro filmes para serem distribuídos nos cinemas brasileiros. Percebeu que havia espaço no mercado para uma distribuidora de títulos clássicos e de arte. Em 1989, nascia a Pandora, responsável pelo lançamento no Brasil, entre outros, de Não Amarás (1988), de Krzysztof Kieslowsk, e Trainspotting - Sem Limites (1996), de Danny Boyle. "Meu sonho sempre foi ter um cinema. Mas percebi que, se comprasse, não haveria filmes para passar. Daí a ideia da Pandora."

 

A sociedade no Belas Artes apareceu quando o cinema passava por um período decadente. Para enfrentar a concorrência, o cinema havia se popularizado e perdia o público cativo. Com o novo parceiro Fernando Meireles, Sturm voltou à programação diferenciada e conseguiu o apoio do HSBC, que durou até março do ano passado. Quando o patrocínio se encerrou, o Belas Artes passou a correr o risco de fechar, mas resistiu com o apoio de amigos e financiadores. E manteve as contas em dia. Segundo Sturm, que atualmente é funcionário da Secretaria de Estado da Cultura, o público médio mensal de 28 mil pessoas arca com 80% dos custos do cinema. O patrocínio é necessário para fechar as contas.

 

Surpresa. Foi no fim do ano, quando se preparava para anunciar um novo patrocinador para o cinema, que veio a surpresa. O proprietário do imóvel cancelou o contrato de aluguel (que subiria para R$ 65 mil), com a ideia de locá-lo para uma loja. O imóvel seria entregue no dia 27 de janeiro. Flávio Maluf e a mãe, Eliane, preferiram trocar de inquilino. Uma decisão pessoal, talvez motivada por alguns mil reais, da noite para o dia poderia afetar a rotina de milhares. Acabou tendo um efeito benéfico. Mesmo que virtualmente, provocou nos paulistanos a vontade de debater o destino da cidade onde querem viver. Procurado pelo Estado, Flávio disse que ainda não é o momento de se manifestar. Pelos últimos acontecimentos, as chances do despejo diminuíram. Filmes melancólicos, mais baratos, fora dos shoppings centers, passados de madrugada: ainda há esperança.

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