O guardião da biblioteca de Mindlin

Pedro Puntoni, historiador que frequentava a casa do bibliófilo, comanda projeto de digitalização do acervo e construção do prédio que abrigará os 40 mil volumes

Edison Veiga, de O Estado de S. Paulo

19 Junho 2010 | 23h21

 

Era julho de 2007. Pedro Puntoni havia acabado de ser nomeado diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em instalação na Universidade de São Paulo (USP), e almoçava na casa do empresário e bibliófilo José Mindlin:

 

- Doutor José - dirigiu-se ao bibliófilo -, queria lhe dizer que me sinto muito honrado com o cargo, com tanta responsabilidade. E espero corresponder à altura.

 

- Pedro, nós vamos ajudá-lo - ele respondeu. Sei que este é um peso enorme.

 

E naquele mesmo dia ficou acertado que Puntoni precisava "aprender a biblioteca":

 

- Você tem de conhecer toda ela - frisava Mindlin.

 

Trataram de selar um acordo. A partir disso, quinta-feira havia um programa sagrado para o novo diretor. "Era o dia da semana em que eu passei a ir cedo à casa dele e só sair de lá no fim do dia", relata. "Quando o doutor José estava, conversávamos, ele me contava histórias sobre os livros, me pedia para ler algum poema." Quando ficava sozinho, aproveitava para circular entre as estantes e conhecer um pouco daquele mundo que, aos poucos, também se tornava um pouquinho seu. "Não era uma coisa sistemática. Ele via o livro que despertava interesse nele na hora", conta Cristina Antunes, que trabalha no acervo de Mindlin há três décadas.

 

Essas visitas semanais ocorreram até dezembro do ano passado. "No comecinho de janeiro, ainda passei lá para desejar feliz ano-novo ao doutor José", afirma Puntoni, hoje com 43 anos. Foi a última vez em que eles se viram. Dias depois, o bibliófilo acabou hospitalizado. Em 28 de fevereiro, aos 95 anos, José Mindlin morreu.

 

Da casa para a USP. A biblioteca em questão, com 17 mil títulos - ou 40 mil volumes -, é o maior e mais relevante acervo originalmente particular de livros do Brasil. Mindlin começou a formá-lo aos 13 anos. "A ideia de transformar em algo público foi aventada pela primeira vez ainda nos anos 80", lembra Puntoni. "Em 1999, doutor José manifestou, em carta, a intenção de doar os livros à universidade." Sete anos mais tarde, finalmente, o ato foi oficializado: Mindlin legava à USP, de papel passado, sua preciosa Brasiliana.

 

Professor da mesma universidade, o historiador Pedro Puntoni entraria no projeto apenas no ano seguinte. Mas sua relação com Mindlin era mais antiga. "Em 1990, quando fazia meu mestrado, recorri ao doutor José porque só ele tinha uma coleção de revistas que eu precisava", recorda-se. "Da primeira vez, ele me recebeu e fez uma verdadeira sabatina sobre meus estudos. Queria saber se eu realmente conhecia os livros e só então me liberou para frequentar a biblioteca." Tornou-se assíduo, por anos. Até o fim do mestrado. Depois, durante todo o doutorado. "Era uma alegria quando ele, sempre gentil, me convidava para um café", diz.

 

Sua primeira missão à frente da Brasiliana foi coordenar um ousado plano interdisciplinar - que envolve 40 professores da USP - de digitalização do acervo de Mindlin. Um scanner especial foi adquirido para isso e vem funcionando desde abril do ano passado. "Custou US$ 220 mil e tem capacidade para copiar 2,4 mil páginas por hora", detalha o engenheiro eletrônico Edson Gomi, participante do projeto. Mil títulos já estão na internet e podem ser baixados, na íntegra, de graça. "Doutor José era um entusiasta da digitalização, pois acreditava que isso iria ampliar o acesso aos seus livros, sem deteriorá-los", ressalta Puntoni.

 

O historiador também acompanha a construção do prédio - orçado em R$ 100 milhões e situado na própria Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste de São Paulo - que vai abrigar os 40 mil volumes da Brasiliana. Pelo cronograma, a obra deve ficar pronta no fim de 2011. Ali, além da biblioteca, funcionará o centro de digitalização e um ateliê de restauro de livros. Cultura escrita que deixaria doutor José orgulhoso.

 

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