O Guardador de amanhã

'Devemos celebrar os encontros no caminho, ainda que negros sejam'

João Anzanello Carrascoza,

24 de janeiro de 2014 | 23h50

Quando saio de casa pela manhã e deixo minha vida passar pelas ruas dessa cidade, eu vejo uma árvore logo à esquina - houve tempo em que eram raras aqui -, e queria vê-la com o aumento da verdade. Não como quem lê um poema, mas quem nele entra igual o corpo numa calça. E, embora tente essa outra leitura, eu não consigo: eu só a vejo, árvore, como a árvore que ela é, um ramo sequer a mais, uma folha sequer a menos. Também, à noite, quando saio a andar a esmo, eu comigo, pelo prazer do passeio, sinto que me olham lá de cima, as estrelas - agora, com menos edifícios, podemos observá-las -, então giro a cabeça e também as miro, e, embora me alegre vê-las nascer da minha vista, como da casca de um ovo, eu não as vejo senão como são, estrelas. Lindas, luminescentes no céu noturno de São Paulo. Mas tão somente estrelas, alheias ao encanto que os meus olhos teimam em lhes dar. E tudo mais que eu vejo, sol, casas térreas (sem cerca elétrica), crianças brincando em parques, barcos em rios navegáveis e gente sorridente (por todos os lados), eu só os vejo como são sem mim, na sua natureza própria. Ainda que eu procure uma pista - encontrar a ponta oculta do cordão, puxá-la e acionar o seu mistério já bastaria! -, eu nada encontro que não sejam eles mesmos, na sua só presença, viva. Eu os saúdo do meu jeito, silencioso, que é o meu jeito limpo de olhar, não porque queira lhes dar (com a palavra) realidade, mas porque devemos celebrar os encontros no caminho, ainda que negros sejam. Ainda que, vendo essa cidade, isenta de uma luz que torne maior sua beleza, eu esteja apenas rasurando meus olhos com o sonho de reconstruí-la.

João Anzanello Carrascoza é professor universitário e escritor, autor do romance Aos 7 e aos 40 e dos livros de contos Aquela Água Toda e Amores Mínimos, entre outros. Nasceu no interior do Estado, mas vive na cidade de São Paulo há 30 anos.

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