''O grande obstáculo é que somos minoria dentro de uma minoria''

DEPOIMENTO

, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2011 | 00h00

Lucas de Abreu Maia, jornalista do "Estado"

Para um usuário de cão-guia, levar à Justiça estabelecimento que rejeita entrada de seu companheiro não é um ato individual, em busca de vingança ou recompensa financeira. Esses processos têm caráter didático e buscam abrir precedente contra discriminação e evitar que a rejeição aos cães continue se repetindo.

Faz menos de seis anos que usuários de cães-guia no Brasil têm direito garantido de entrar com animais em qualquer estabelecimento público ou particular de uso coletivo. Só em 2005 lei federal estendeu a todo o País o que antes era regulamentado apenas na esfera estadual - e por poucos Estados.

Não há, contudo, lei capaz de mudar a cultura da sociedade. Em um país onde cães são majoritariamente vistos como bichos que devem ser mantidos no quintal, causa estranheza a tentativa de um cego de entrar em restaurante, shopping, ônibus e afins acompanhado de seu guia. A resistência à sua presença - e à de seu cachorro - é uma desagradável experiência.

Mas são raros os casos em que a discussão na porta de estabelecimento público chega aos tribunais. Na maior parte das vezes, funcionários - quase sempre despreparados em atender clientes com deficiência - recuam diante da ameaça de chamar a polícia e da multa, que pode chegar a R$ 30 mil. Há situações, porém, em que ficamos sem alternativa (já ouvi a pérola: "Não me interessa o que diz a lei"). Nesses casos, um processo judicial é a única maneira de garantir que a discriminação não sairá impune.

A minha experiência de usuário de cão-guia - que antecede a criação da legislação federal - me diz que, como tantas outras coisas no Brasil, a rejeição aos animais de serviço vem diminuindo. A discriminação cai conforme o grau educacional sobe (em São Paulo, por exemplo, enfrento muito menos problemas do que no interior).

Houve inúmeras tentativas de garantir o ingresso de cães-guia em estabelecimentos abertos ao público. Em grande parte, os maiores opositores deste direito eram, surpreendentemente, outros cegos. Vem daí o grande obstáculo no caminho dos usuários de cães-guia: somos a minoria dentro de uma minoria. Não existem números exatos sobre quantos somos, mas estimativas variam entre 60 e 200 no Brasil.

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