O grande ladrão

Numa casa ao lado da Livraria da Vila, na Rua Fradique Coutinho, 915, e hoje à livraria incorporada, uma placa informa: "Nesta casa, em 14 de junho de 1970, foi preso pela última vez o grande ladrão Amleto Gino Meneghetti." Ele estava com 92 anos de idade. A placa registra como fato histórico uma ocorrência policial e qualifica Meneghetti como "grande", que, em outros e recuados tempos, seria classificado apenas como ladrão. Mas o ancião há muito já entrara no imaginário da população paulistana como herói popular, população que torcia por ele e não pela polícia.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

15 Março 2010 | 00h00

Ele nascera em 1878, em Pisa, na Itália, e faleceria, em São Paulo, em 1976, seis anos depois dessa última prisão, com quase 100 anos de idade. Era filho de um operário. Seus primeiros delitos foram praticados na adolescência, por causa dos quais fugiu para a França, de onde, anos depois, foi deportado para cá. Era mais comum do que se pensa a suposição de que mandar alguém para o Brasil constituía castigo duro.

Chegara aqui com 35 anos de idade. Desembarcou em Santos, em 1913, vindo morar com uma tia em São Paulo. Ao chegar, já era conhecido da polícia daqui, informada previamente pela polícia italiana de seus delitos por lá. Menos de um ano depois de chegar, foi preso por roubo e condenado a 8 anos de prisão. Daí em diante, sua vida será uma sucessão de prisões, fugas, escapadas espetaculares por muros altos e telhados, mudança de cidades, manipulação de recursos teatrais para mudar de cara e de aparência, de modo a não ser reconhecido. Tinha um fôlego impressionante e escapava da polícia com facilidade. Era admirado nas conversas de calçada dos bairros operários.

Ficou famoso e popular não só por isso, mas também porque só roubava os ricos. Sua fama deveu-se, ainda, às notícias sobre maus-tratos recebidos na cadeia, frequentemente castigado e recolhido à solitária. Tinha medo de ser envenenado na prisão, o que o levava, na solitária, a lavar a comida na água da privada, antes de comê-la.

O povo reconhecia nele um dos seus e via em sua história de vítima da polícia sua própria história. Ficara profundamente gravada na memória social a repressão violenta à greve geral de 1917, quatro anos depois da chegada de Meneghetti. Naqueles tempos, o tratamento repressivo às chamadas classes perigosas não fazia propriamente distinção entre delinquentes e proletários. Do mesmo modo que um ladrão como Meneghetti não só agia em nome do que era, no fundo, a luta de classes, como invocava em sua vida símbolos dessa luta.

Raptara aqui em São Paulo Concetta Tovani e com ela casara. Dos cinco filhos que tiveram, sobreviveram dois: Espártaco e Lenine, dois nomes altamente simbólicos da luta de classes, nomes que comunistas gostavam de dar a seus filhos. Eram os tempos da consciência social difusa.

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