Arquivo Estadão - 4/9/1983
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O gestor nasceu na política. E agora volta ao governo

Trinta anos separam a posse de João Doria Jr. na Prefeitura da sua nomeação para o último cargo público que ocupou, a Embratur

Adriana Ferraz e Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Dois canhões de laser iluminavam o luxuoso auditório do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio, para a cerimônia de posse do novo presidente da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur). Cerca de mil pessoas, entre governadores, políticos, empresários e artistas, aguardavam o discurso de João Doria Júnior. “A Embratur é um cabide de empregos”, bradou o jovem de 28 anos. “Dos 500 funcionários, 50 não trabalham e jamais foram à empresa”, concluiu naquela terça-feira, 18 de março de 1986.

Indicado ao cargo para o presidente José Sarney (PMDB) pelo então governador paulista Franco Montoro (PMDB), Doria anunciou como meta cortar 10% da folha de pagamento da Embratur. “Quero reduzir essas despesas, pois só assim é que poderemos começar a dar à empresa uma imagem de eficiência e exigir mais investimentos do governo para o setor”, justificou aos convidados, que depois se dirigiram a um coquetel em uma boate no Leblon.

Trinta anos separam a posse do novo prefeito de São Paulo do seu último cargo público. Seja pelo palco escolhido para a transmissão do cargo hoje à tarde (o inédito Teatro Municipal), seja pelas promessas feitas para enxugar a máquina (15% dos contratos, 30% dos cargos comissionados e 35% das despesas de custeio), João Doria, hoje com 59 anos, demonstra que pouco mudou como gestor no hiato que precedeu sua volta à política, agora eleito no 1.º turno, com 3 milhões de votos e o auxílio de outro governador paulista, Geraldo Alckmin.

Geração. Filho do ex-deputado federal baiano João Doria, quadro da esquerda do Partido Democrata Cristão (PDC) que foi cassado em 1964 pelo regime militar depois de insistir em uma CPI para investigar o financiamento estrangeiro em empresas jornalísticas brasileiras, o jornalista e empresário aponta a figura do pai como exemplo de caráter e inspiração política. Foi graças ao patriarca, amigo de Montoro, que Doria Júnior ingressou na vida pública, indicado para chefiar a secretaria e a empresa municipal de turismo (Paulistur) na gestão do prefeito Mario Covas (1983-1985).

Responsável por organizar e financiar o carnaval paulistano no Anhembi, a Paulistur estava atolada em dívidas. Doria, então recém-formado em Comunicação Social, com passagens por emissoras de TV e agência de publicidade, apostou na criação de dois conselhos (Lazer e Turismo) para propor ideias para desenvolver o setor na cidade.

A exemplo dos conselhos anunciados pelo agora prefeito da capital (serão 22), os grupos eram formados por “pessoas bem-sucedidas em suas atividades”, como definiu à época. Entre notáveis, estavam a cantora Fafá de Belém, o ator Raul Cortez e o jogador Sócrates.

Embora algumas ideias tenham saído do papel, como a criação da Feira de Trocas no Bexiga, nem Doria nem os famosos conseguiram salvar a Paulistur, que foi desativada pelo sucessor de Covas na Prefeitura, Jânio Quadros, crítico da gestão Doria.

“O atual prefeito (Jânio), que acabou com a Paulistur, e portanto não deve gostar de turismo, deve ter ficado irritado com a minha nomeação”, disse Doria após Jânio sugerir sua demissão da Embratur.

Na estatal do turismo nacional, o publicitário encampou a criação do dólar turismo (em 1988) para combater a ação de doleiros e apostou em campanhas para vender a imagem do País no exterior, uma delas acusada de promover o turismo sexual por expor o corpo feminino, o que ele sempre negou.

Talk show. A transição da vida pública para a privada foi rápida. Em menos de seis meses, Doria já estava sentado ao lado do milionário americano Malcolm Forbes, dono da revista Forbes, em sua estreia como apresentador de TV no programa Sucesso, na Bandeirantes.

O nome fez jus à trajetória que se sucedeu do empresário. À frente do Grupo Doria desde 1992, ele se notabilizou por promover encontros de importantes executivos com políticos e autoridades nos almoços mensais do Lide, agremiação empresarial que criou em 2003 e que hoje reúne 1,7 mil filiados - ou 54% do PIB nacional, como costuma dizer.

“Ele se diz empresário, mas não produz nada. O que ele faz é cobrar de executivos de empresas para aproximá-los de agentes públicos e políticos”, criticou o ex-governador Alberto Goldman (PSDB), que contestou duramente a candidatura de Doria a prefeito durante o processo de prévias tucanas na qual ele derrotou o vereador Andrea Matarazzo com a ajuda de Alckmin. Uma das broncas de Goldman com o correligionário era o fato de Doria usar como mote de campanha a frase “não sou político, sou gestor”.

Filiado ao PSDB desde 2001, Doria não deixou de circular na política, ainda que no ambiente empresarial. Tem como trunfo a forma de abordagem, quase sempre direta, sem intermediários. Em três meses de transição, ligou para presidentes de multinacionais, como a Mitsubishi, pedindo veículos para o programa de segurança no trânsito e até para o padre Julio Lancellotti em razão de um mal-entendido após uma declaração sua sobre moradores de rua.

“O João valoriza as pessoas, tira delas o melhor. Como prefeito, ele vai dar o exemplo e as pessoas vão trabalhar bem, você vai ver”, diz a presidente do Lide Mulher, Sonia Hess de Souza, presidente da Dudalina.

Nos almoços do Lide, ele fiscaliza do cardápio à posição dos talheres e taças. Arruma quadros na parede, recolhe papéis do chão e alinha gravadores e microfones posicionados à sua frente nas entrevistas. O cuidado é estendido ao visual. Para não correr o risco de ficar com a roupa suja ou amassada durante o dia, leva uma troca idêntica a que está usando. Tudo para se manter impecável, o que inclui o corte de cabelo, exercícios diários e hábitos saudáveis - não bebe, não fuma e prefere pratos leves, como peixes grelhados.

Dono de uma fortuna de R$ 180 milhões, o tucano vive com a mulher, a artista plástica Bia Doria, e os três filhos em um dos maiores casarões de São Paulo, nos Jardins. O voto da periferia, conseguiu graças ao slogan “João trabalhador”, que tentará preservar no mandato. Amanhã, estará vestido de gari limpando as ruas da região central da cidade, um gesto político que faz o paulistano lembrar de seu antigo desafeto, Jânio.

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Saúde, Educação e Transportes vão colocar gestão à prova

Especialistas fazem ressalvas às metas e aos prazos estipulados para essas áreas principais pelo novo governo

O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - João Doria (PSDB) assume hoje o comando da Prefeitura com o objetivo de provar que a capital precisa de um gestor, não de um político. Terá quatro anos para mostrar que vai governar para os mais pobres e diz que trabalhará 12 horas por dia. Especialistas ouvidos pelo Estado, porém, apontam ressalvas às metas e prazos que o tucano anunciou até aqui.

A cerimônia de posse será às 15 horas, na Câmara Municipal. No comando estará o ex-senador e agora vereador Eduardo Suplicy (PT), que assume a função por ser, aos 75 anos, o mais velho da Casa. Em seguida, Doria recebe o bastão de Fernando Haddad (PT), no Teatro Municipal. Ali, lançará oficialmente seu programa “Cidade Linda”, mutirão que visa a limpar ruas e praças.

O novo prefeito começa, no entanto, com a velha prática política de anunciar “choques de gestão”, a começar pela zeladoria. Afirma que estará a postos amanhã, às 6h, vestido de gari, com seus 22 secretários, para varrer a Praça 14 Bis, no centro. O mutirão é visto com ressalvas.

“Ele está certo em fazer ações de zeladoria, mas não é só uma questão de limpar a cidade. Precisa ter investimento para colocar padrões nas calçadas, guias, bancos, tirar a fiação exposta para ficar com cara de cidade do século 21”, diz o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Lúcio Gomes Machado.

Dúvidas. O mais ousado de seus compromissos está na área de Educação. Doria prometeu zerar, em um ano, a fila de 133 mil crianças por vagas em creche, por meio da ampliação de convênios com entidades da rede privada.

Nos cálculos de Cisele Ortiz, coordenadora do Instituto Avisa Lá, o prefeito teria de inaugurar 1 mil unidades com 150 vagas. “Algo que não me parece possível de ser feito em um ano.” Para ela, seria importante flexibilizar o tamanho das creches. “Há um limite mínimo e quantidade mínima de alunos. Em algumas regiões, um equipamento menor já resolveria o problema.”

“O primeiro grande desafio é o financiamento, o que exigirá do novo prefeito a abertura de novas fontes ou o remanejamento interno”, diz o especialista em Educação da Universidade Federal do ABC (UFABC) Salomão Ximenes.

Na saúde, outra tarefa nada fácil: acabar com a fila por exames, que é de 417 mil, em 90 dias, a partir da contratação de serviços da rede privada.

Para Walter Cintra, coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar da FGV, o prazo não parece suficiente, mesmo com parcerias. “Aparentemente, é pouco tempo. Seria preciso reavaliar a necessidade de todos esses exames, quantos pacientes já não precisam mais, se alguns estão em mais de uma fila.”

Outra preocupação da gestão é manter a tarifa de ônibus a R$ 3,80. Para o professor do Departamento de Engenharia de Tráfego da USP Claudio Barbieri da Cunha, Doria teria de mexer nas gratuidades do bilhete único. “Gratuidades são ótimas e é um pouco antipático falar disso, mas é preciso avaliar melhor se elas estão sendo dadas para quem realmente precisa.”

Cunha questiona ainda a promessa de aumentar a velocidade nas Marginais. “Essa virou uma discussão quase religiosa, de fé. Mas o fato é que há muito pouco estudo sobre os acidentes nas Marginais”, diz. “Acho que 90 km/h é um limite muito alto para as pistas expressas. Mas volto a falar: é uma opinião. Os dados de acidentes têm de ser mais transparentes para que a comunidade possa estudar e avaliar o problema.” / ADRIANA FERRAZ, BRUNO RIBEIRO, FABIANA CAMBRICOLI, LUIZ FERNANDO TOLEDO e PAULA FELIX

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