O farmacêutico mais antigo de SP

Aos 90 anos, Paulo Queiroz Marques continua na ativa em sua farmácia em Higienópolis; se passar por lá, cumprimente-o com um abraço

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Faz 50 anos. Mas é uma lembrança das mais fortes na memória do farmacêutico Paulo Queiroz Marques, de 90 anos, o mais velho em atividade no Estado de São Paulo. "Eu era o primeiro da fila", conta. Foi numa quarta-feira, 5 de julho de 1961. O Conselho Regional de Farmácia acabava de ser aberto em São Paulo e profissionais da área correram para apanhar as carteirinhas. A de Paulo saiu com o número 16. "De 1 a 15 eram os conselheiros e seus suplentes."

Diferentemente de muitos companheiros de fila, Paulo não era recém-formado. Seu diploma de farmacêutico, conferido pela Universidade de São Paulo (USP), já tinha 17 anos. De carreira, contava décadas: filho de um boticário do interior, Paulo começou a manipular medicamentos com 6 anos. Ele nasceu na cidade de Itaberá, região sudoeste do Estado. Seu pai, Joaquim Marques, era dono da única farmácia da cidade, a São Pedro. Quando Paulo tinha 5 anos, mudaram-se para Faxina - hoje Itapeva. "Meu pai comprou uma farmácia lá, a Sant"Anna", recorda.

Sua vida de farmacêutico precoce seria iniciada por conta de uma epidemia de malária que assolou a região. "Meu pai manipulava um medicamento, em cápsulas. A demanda era de mil unidades por dia. Os filhos todos começaram a ajudar (Paulo teve 12 irmãos)." Mesmo após a epidemia, a rotina de Paulo continuou sendo a farmácia do pai. Saía das aulas e corria para detrás do balcão. "Para mim, aquilo era uma brincadeira", conta. Aos 8 anos, já aplicava injeção. "Na primeira vez, fiquei nervoso. Mas aí a paciente disse que não doeu nada. Pensei que devia ter uma mão boa."

Caipira. Aos 18 anos, Paulo mudou para São Paulo. Para estudar. Morava em uma pensão no centro e começou a cursar Farmácia na USP - na época, o curso era no Bom Retiro. Quando chegou, ficou surpreso. "Eu era um caipira. Não conhecia nada de São Paulo com aqueles prédios majestosos", comenta. "Meus colegas falavam com linguajar refinado. Eu, com meu terno de brim, simples, e eles com carrão, filhos de industriais." Formou-se em 1944 e seu primeiro emprego na capital foi em um laboratório de análises clínicas na Avenida São Luís, no centro. Ficou lá dois anos.

Então apareceu uma oportunidade para que voltasse ao interior. Virou sócio de um laboratório em Ourinhos. Mas a aventura durou pouco mais de dez anos. "Minha mulher (nesse meio tempo, ele se casou), Daisy, é paulistana e não se acostumou." Em 1957, Paulo retornou a São Paulo. E foi trabalhar em uma farmácia que ficava na Praça Buenos Aires, em Higienópolis.

Guinada. Nova guinada em sua vida aconteceria em 1963. "Eu estava lendo o Estadão e vi o anúncio de que estava à venda um ponto para farmácia na Rua Itacolomi (também em Higienópolis)", conta. "Achei que era minha oportunidade de correr em raia própria." Marcou com o corretor - que, por coincidência, já era seu cliente da outra farmácia -, encantou-se, fechou negócio. Nascia daí a Drogamérica, que jamais mudou de endereço e conserva a mesma decoração e mobília, que hoje lhe dão um ar retrô.

"Ele é, sem dúvida, um dos grandes colaboradores da preservação da memória da Farmácia", elogia Raquel Rizzi, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo. "Temos muito a agradecer a esse farmacêutico tão importante."

A memória da profissão também é preservada no Museu da Santa Casa de Misericórdia, cuja sala dedicada à Farmácia ele ajudou a montar.

Em 2005, quando o espaço foi criado, ele cedeu muitos itens antigos. "Graças à doação, ao lado de outras peças de nosso acervo, foi possível montar essa sala que tanto demonstra o passado de nossas boticas. São peças importantes não só por sua antiguidade, mas por sua raridade", diz Maria Nazarete de Barros Andrade, coordenadora do museu.

Lúcido e forte, Paulo é a memória viva da profissão que adotou ainda menino. E trabalha diariamente em sua Drogamérica. Com uma única preocupação: quem vai continuar? "Tive quatro filhos (três ainda vivos). Nenhum se tornou farmacêutico. Tenho 90 anos de idade e nenhum sucessor", afirma.

PS: Caso você passe para cumprimentá-lo, não lhe estenda a mão. Não é assim que Paulo cumprimenta as pessoas. "Dou um abraço. Porque não é com a mão, mas com o coração", define.

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