O estopim do extermínio ninja

Em resposta à morte de vigilante julgado e condenado pelo PCC, policiais deram início à onda de violência que assombrou a Baixada Santista em abril. Ex-PM diz que revide é forma de ''marcar território''

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

 

 

Guarujá. Favela da Aldeia, onde Anderson dos Santos, acusado de pedofilia, foi sequestrado; em resposta, policiais executaram 23 pessoas

 

     Tudo começou em um pequeno barraco de madeira na Favela da Aldeia, em Vicente de Carvalho, bairro do Guarujá, lugar com ruas de terra encurralado entre o mangue e a linha de trem. Era lá onde o vigilante noturno Anderson Oliveira dos Santos, de 31 anos, vivia com a mulher, Kelly, uma filha e um enteado. Num sábado, dia 2 de abril, Kelly causou comoção na comunidade ao juntar mães que acusavam seu marido de passar filmes pornográficos e molestar quatro crianças.

Era o primeiro capítulo de uma história que duas semanas depois iria desencadear uma série de 23 assassinatos na Baixada Santista, a detenção de 18 policiais militares e levantar suspeitas de que um grupo de extermínio vinha atuando na região. O episódio, cujos indícios apontam para uma vingança destemperada, orquestrada por policiais, refletiu a tensão decorrente da onda crescente de violência nas cidades de Guarujá, São Vicente, Cubatão e Santos, que no ano passado foram as principais responsáveis por elevar os índices de homicídio no Estado depois de dez anos em queda.

Ainda no sábado, Anderson, o vigilante acusado pelos abusos, foi deslocado por cerca de 20 quilômetros em uma van para um barraco na Vila Baiana, favela que fica no pico de um morro do Guarujá. No local, foi organizado um debate que teve a participação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), encabeçado por Eduardinho, chefe do crime na Aldeia, Natal e Gato Félix, além das mães e das crianças envolvidas na história.

No julgamento informal, Anderson provavelmente foi condenado, já que no mesmo dia do debate o acusado desapareceu.

Resposta. Poderia ser só mais uma das sentenças surreais dos tribunais paralelos organizados por criminosos que se espalham pelas periferias do Estado, não fosse Anderson irmão de um policial militar que trabalhava em Diadema. Nesse caso, a ousadia teria resposta. Juntamente com um grupo de policiais, Célio, irmão de Anderson, iniciou incursões permanentes ao longo de duas semanas em busca do corpo desaparecido.

"Foram duas semanas de sofrimento. Quem eles encontravam, davam tabefes. Bateram em deficientes, deram tiro para cima, humilharam mulheres e crianças", conta a tia de uma das meninas supostamente molestada, que pediu para não ser identificada.

No dia 18 de abril, um domingo, as coisas esquentaram de vez. Uma hora depois do jogo do Santos na semifinal do paulista, às 19 horas, duas motos com homens encapuzados cercaram o Fiat Siena do soldado Paulo Raphael Ferreira Pires e o executaram com dez tiros de fuzil. Testemunhas ouvidas pela polícia disseram que o policial morto e seu irmão, Paulo Rodrigo, também policial do Guarujá, faziam parte do grupo que praticava as incursões na Favela da Aldeia em busca do corpo do vigia desaparecido.

Foi o estopim para que a vingança tivesse início. Ao longo da noite e da madrugada do dia 19, na segunda-feira, cinco pessoas foram mortas no bairro de Vicente de Carvalho, que compreende as favelas da Aldeia, da Prainha e de PaeCara, região onde o policial foi morto. Dois dias depois, outra pessoa foi assassinada em Vicente de Carvalho e quatro morreram em São Vicente. Assim como aconteceu em São Paulo em maio de 2006, autoridades que investigam o caso acreditam que houve uma resposta emocional por parte de policiais aos ataques de criminosos. E, assim como em São Paulo, na semana dos assassinatos as escolas de Vicente de Carvalho não tiveram aulas, as portas do comércio fecharam e poucos tiveram coragem de sair às ruas.

Desequilíbrio. Depois de dez anos consecutivos registrando queda de assassinatos, o Estado de São Paulo teve alta de homicídios pela primeira vez em 2009. Foi um crescimento sutil, com 1.235 casos, só 33 a mais do que no ano anterior, o que representou menos de 3% de alta. Grande parte do aumento se deve às cidades de Guarujá, Santos, Cubatão e São Vicente que, juntas, tiveram 176 assassinatos, 62 a mais do que em 2008 - crescimento de 54%.

No mês de abril, época dos assassinatos, o índice de homicídios na Baixada Santista foi menor do que em abril de 2009. Apesar do massacre ocorrido na semana de 18 a 26 de abril, a região fechou o mês com 37 homicídios, um a menos do que o total de abril passado.

"Esse episódio reflete um problema que poucos querem enxergar e está se repetindo. O PCC comanda o tráfico nas favelas e é forte na Baixada. São vizinhos de policiais. Muitos deles são ameaçados e não contam com o respaldo do comando. Para muitos policiais, a solução é partir para cima, senão eles perdem o respeito no território", explica o vereador do Guarujá Ronald Luiz Nicolaci, tenente da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) entre 1995 e 1998, ex-tenente do Guarujá e Praia Grande, que deixou a polícia há dois anos para assumir a cadeira na Câmara Municipal.

Tensão. Se em maio de 2006, época dos ataques do PCC, a Baixada já havia se destacado como um dos palcos mais sangrentos da semana da suposta reação policial, com dez assassinatos de autoria desconhecida e uma resistência seguida de morte, a tensão entre o crime organizado e policiais se exacerbou de 2008 para cá.

Nas investigações feitas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Santos, ligado ao Ministério Público Estadual, escutas telefônicas na Penitenciária de Presidente Venceslau ligaram crimes cometidos contra quatro policiais em 2008 em Praia Grande (dois homicídios e duas tentativas) a integrantes do PCC. À mesma conclusão chegaram para a morte de dois PMs de São Vicente e de uma ameaça no Guarujá.

"Quando você toma um tapa na cara, ou você abaixa a cabeça ou dá um de volta. Os comandantes da polícia estiveram na rua 20 anos atrás. Não entendem o que ocorre", diz um policial do Guarujá, que deu entrevista sob a condição de não ser identificado. Com "mais de dez resistências seguidas de morte", ele diz que dorme com a pistola ao lado da cama e nunca mais andou de carro com a mulher e o filho, para evitar riscos.

O comando de Policiamento da PM do Interior 6, responsável pela Baixada e Vale do Ribeira, pondera que muitos policiais são vítimas de assassinatos durante os bicos. E lembra que na sexta-feira foi preso o assassino do sargento Luiz Alberto Pereira, morto em 2007 enquanto fazia a segurança de um condomínio no Guarujá. Segundo o comando, as investigações mostraram que ele morreu não porque era PM, mas porque interveio em um caso de roubo. Em 2009, 66 policiais morreram durante a folga no Estado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.