''O Estado hoje usa máscaras''

Primeiramente veio a tragédia. Em maio de 2006, Débora Maria da Silva perdeu o filho, o gari Edson Rogério da Silva, assassinado aos 29 anos em Santos nos dias que se seguiram aos ataques do Primeiro Comando da Capital. Na busca por Justiça, encontrou uma causa. Em conversas com outras mães de jovens que morreram no mesmo período, ela criou a Fundação de Amparo a Mães e Familiares Vítimas de Violência, conhecida como Mães de Maio, com o objetivo de lutar contra a impunidade em casos de violência praticados por policiais.

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Nos casos de maio de 2006, ela percebeu alguns procedimentos comuns aos supostos crimes cometidos por policiais ? que acabaram sendo arquivados sem que fossem encontrados os culpados. Havia motos e autores com toucas ninjas, que depois do crime recolhiam as cápsulas disparadas. Em parceria com a entidade Observatório das Violências Policiais, eles passaram a acompanhar dezenas de jornais paulistas para contabilizar o total de pessoas mortas no Estado de São Paulo por assassinos mascarados.

Desde os ataques do PCC, 360 pessoas foram mortas por criminosos vestindo toucas ninjas segundo reportagens de jornais. Não é possível dizer que esses crimes foram praticados por policiais. Mas Débora afirma que os números deveriam provocar um debate maior na sociedade. "O Estado hoje usa máscaras", afirma Débora. Ela acredita que o arquivamento dos casos de Santos contribuíram para que policiais continuassem agindo movidos pelo impulso da vingança, usando os mesmos métodos que já mostraram ser eficientes e garantem a impunidade.

No fim de 2009, a morte de um policial no Guarujá já havia provocado reações de encapuzados. Morador de Morrinhos, bairro pobre da cidade, um jovem ligado ao grupo das mães, que pediu para não ser identificado, conta que teve o primo atacado por disparos no bairro de Santo Antônio. Ele acabou sobrevivendo e no ataque outras duas pessoas foram atingidas por disparos. "Nessas disputas, acaba sobrando para quem não tem nada a ver. A vingança ocorre contra quem está de bobeira no meio da rua", afirma.

Em muitos casos, a truculência policial não se resume somente aos justiçamentos privados. Assassinatos muitas vezes estão associados a outras atividades criminais, como ocorreu entre policiais do 18.º Batalhão da Polícia Militar, acusados de matar o coronel José Hermínio Rodrigues, comandante da polícia da zona norte de São Paulo. O motivo do assassinato seria a interferência do coronel no esquema de caixinha paga a policiais corruptos por traficantes locais. Eles também faturavam com dinheiro de caça-níqueis.

Neste ano, para lidar com o problema nas tropas, além de afastar os suspeitos de envolvimento, a Secretaria da Segurança Pública tem cobrado medidas dos comandos policiais. No caso da Baixada Santista, a lentidão nas apurações dos assassinatos levou à troca da chefia da Corregedoria de Polícia.

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