O esperanto é o último que morre

Nossa padaria pode não ser a melhor do mundo, nem mesmo do bairro, mas tem lá suas surpresas. É uma de suas características. O Paulo Leite, com quem bato ponto ali todas as manhãs, às vezes também à tarde, já observou por exemplo que o pão às vezes se apresenta bastante comível. Não é frequente, mas acontece.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

O pão a que ele se refere é um folhado em princípio alimentício que me lembra uma chinela à antiga na qual o lugar do pé esteja ocupado por uma fatia gorda de queijo branco derretido a extravasar do bico e do calcanhar. O aspecto desse croissant encruado não é convidativo, e o gosto também não deve ser grande coisa. Assim como no uso do adoçante, que ele esguicha farta e insensatamente em seu café, o Paulo não economiza críticas ao mau-bocado - o que não o impede de deglutir pelo menos um no café da manhã; quando não dá conta da chinela inteira, ele pede à Viviane ou à Selma que lhe traga um saquinho, e leva os despojos para comer em casa. Dia desses ainda me animo a encarar um daqueles calçados comestíveis, guiado menos pelo paladar do que pela insondável sabedoria do meu amigo Paulo Leite - notável fotógrafo a quem devo também uma infinidade de clarões filosóficos ou poéticos. Como este, que imediatamente incorporei como diretriz de vida: um pé na terra e outro na jaca! Tomar café com leite é ocasião para nutrir também o espírito.

A novidade mais recente na padoca é uma invasão de caras que nunca vimos por lá. Como num tsunami, a coisa é repentina. De uma hora para outra, não resta uma única mesa disponível. Atarantado, o pessoal da casa se desdobra para atender os forasteiros, em sua maioria senhoras e senhores. Chapéus, cavanhaques, barbas frondosas, um certo ar de Europa Oriental dos anos 50. Nada a ver com o magote de alunos da universidade vizinha, a não ser o fato de que os novos comensais também são ruidosos - e ruidosos numa língua estranha, conforme pude constatar no primeiro fim de tarde em que os encontrei ali, servindo-se de sopa, para eles supo. Tomaram conta da nossa padaria, que chamam de panejo, o J aí soando como I. Ou seria panvendejo, "lugar onde se vende pão", conforme ouvi também?

Entregue à mastigação de sua chinela, o Paulo não quis saber de conversa, mas eu não resisti e puxei papo com os alienígenas, reunidos faz uns dias num congresso de esperanto a quadra e meia dali. Desconfio até que me tornei amiko de uns três ou quatro. O Emílio. O Iuri. O Ari. A Neuza. Se o evento durar mais uns dias, estarei em condições de travar um diálogo como este:

- Kiel vi fartas? (Como está você?)

- Mi fartas bone. (Eu estou bem.)

Com mais sorte, eu poderei me declarar a alguém nos termos que aprendi com um casal de namorados: Mi amas vin. Me amas? Nada disso: eu amo você.

Não, não pretendo me dedicar ao estudo do idioma que o polonês Ludwik Lajzer Zamenhof extraiu de seus miolos faz mais de um século, sonora supo verbal em que entram 28 letras e 28 sons, espécie de lego montado a partir de outras línguas e que estaria hoje nuns quatro milhões de bocas em 124 países. Pode ser uma bizarria, essa língua artificial acrescentada ao caldeirão de tantas outras em que a humanidade, sem muito êxito, vem tentando se entender. Pouco importa. Prefiro saborear o entusiasmo com que meus interlocutores se dispõem a falar disso que acreditam ser, na babel linguística, um instrumento para o entendimento entre as pessoas e os povos. Não é brincadeira não, afirmam, e veio para ficar.

Entre dois expressos, aprendo que computador é komputilo e celular, portebla telefono. Que Olavo Bilac e Guimarães Rosa eram esperantistas. Que na língua do Zamenhof tem até rap. Como retribuição, recomendo a leitura de Sizenando, a vida é triste, crônica em que um homem com mal de amores acorda num melancólico dia de chuva e, tendo ligado o rádio, acha consolo numa aula de esperanto. Alguns anotam o nome do autor, Rubem Braga - e recaem no tema que os apaixona, sob os olhos e ouvidos um tanto céticos do Paulo Leite, às voltas com seu mau-bocado. Preciso perguntar a esse pessoal como é que se diz chinela comestível em esperanto.

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