O escritor ''bisbilhoteiro'' do café de Higienópolis

Evandro Affonso Ferreira foi todos os dias de 2009 tomar expresso com espuma na Cristallo do shopping. As histórias que ouviu inspiraram seu novo romance

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h00

Todos os 365 dias de 2009 foram um imenso domingo chuvoso para o escritor Evandro Affonso Ferreira. E todos se passaram na confeitaria Cristallo do Shopping Pátio Higienópolis. E todos tiveram dois cafezinhos - "do jeito que eu inventei e que as atendentes já sabem: pouco café e muita espuma". Isso: 730 cafés, uma infinita fauna de personagens-clientes, diálogos ouvidos e vidas inventadas. Resultado: o livro Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus, lançado pela Record em 2010, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance e um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, cujos ganhadores serão anunciados no próximo dia 1.º.

Todos os dias, só o cafezinho? Ninguém se importava? Não achavam estranho? "De vez em quando eu pedia uma água, ou um guaraná, só para disfarçar", comenta. "Mas acontecia, sim, de as pessoas estranharem. Uma moça, uma vez, me disse que havia apostado com os amigos que eu só podia ser escritor." E também houve uma senhora que veio oferecer a história de sua vida "porque daria um romance". Evandro desconversou, com a desculpa de que não escreve "sobre pessoas vivas".

Mas são as pessoas vivas que frequentam a confeitaria que inspiraram seus personagens. "Eu conversava telepaticamente com as pessoas, imaginava enredos para elas, fantasiava suas vidas", explica. "Às vezes, algum diálogo era interessante e eu também aproveitava no livro. A conversa podia servir de mote. Mas eu não entrevistava ninguém, não queria "jornalistizar" o livro."

Uma das cenas que mais o emocionou foi quando um cuidador de idosos servia sorvete para uma velhinha. Ela babou e ele prontamente limpou a boca. "Imaginei dizer para ele: "Como você é bom". E ele me respondendo: "Não, não sou bom. Faço isso porque está no meu contrato"."

E também há a cena-homenagem ao poeta Roberto Piva, morto no ano passado, aos 72 anos, vítima de mal de Parkinson. "Nunca conversei com ele. Mas sempre o via. Por causa da doença, ele caminhava cinco, seis passos, e parava. Triste", conta. E cita o trecho do livro: "Pelo menos duas vezes por dia passa por mim poeta interessante aquele cuja decrepidez não veio por conta da velhice: doença maldita se antecipou trazendo tremura no corpo (...). Finjo que não o vejo. Fico triste olhando de soslaio seus passos titubeantes - vítima do aliteramento esse interessante poeta pego pelo Parkinson".

Literatura. Nascido em 1945 na mineira Araxá, Evandro cursou apenas o primário. "Sou autodidata. Ou, como dizia (o poeta) Mário Quintana, ignorante por conta própria", brinca. Sua família foi para o Planalto Central pouco antes da inauguração de Brasília. Lá, ele trabalhou na loja de sapatos do pai. Depois, virou bancário. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo, de onde nunca mais saiu. Trabalhou por 20 anos como publicitário até que, nos anos 1990, desempregado e após um infarto, resolveu vender sua biblioteca pessoal de cerca de 3 mil livros para "fazer dinheiro".

"Aí me aconselharam a montar meu próprio sebo", conta. Nascia o Sagarana, na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, que marcou época no fim da década de 1990 como ponto de encontro de intelectuais, escritores e críticos literários - como João Alexandre Barbosa, morto em 2006. Foi lá que se formou o grupo conhecido como "geração 90", nomes como Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Marcelino Freire e Marcelo Mirisola.

"Mas eu não tinha o menor jeito para os negócios. Do tipo que dava livros para muitos e me recusava a vender alguma obra que estivesse lendo", admite Evandro. "Então não deu certo e, por volta de 2001, 2002, acabei vendendo o sebo." Trabalhou, por alguns anos, numa livraria (hoje extinta) na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Até que abriu outro sebo, o Avalovara, na Avenida Pedroso de Morais, também em Pinheiros. "Ficou na minha mão apenas por três anos. Pelos mesmos problemas do anterior. Eu sou péssimo comerciante. Montei os sebos para congregar pessoas, bater papo, ler livros... Mas o mundo dos negócios é implacável: não aceita poesia", lamenta.

Separado, pai de dois filhos, desde 2007 Evandro vive de uma pequena aposentadoria e do que ganha ensinando em oficinas literárias. Atualmente divide com um amigo um apartamento no Edifício Copan, no centro, e chega a passar metade de cada mês no Rio, onde mora sua namorada. Ou "amada", como gosta de dizer. Seja nas ruas da cidade, seja num café de shopping, ser escritor, enfim, é o que mais lhe ocupa a cabeça. Para a sorte dos leitores.

Ruptura. Apontado pela crítica como prova de amadurecimento do autor, o novo livro é o oitavo de Evandro. Ou, pela sua contagem - que renega dois títulos humorísticos dos anos 90 -, o sexto. Antes publicou Grogotó (Topbooks), Araã (Hedra), Zaratempô (Editora 34), Erefuê (Editora 34) e Catrâmbias (também pela Editora 34). Para Evandro, o amadurecimento é consequência da vida: coincide com uma reviravolta que inclui fechamento de sua livraria de usados, fim do casamento, mudança para um horrível quartinho de pensão...

"Penso que foi necessário que ele levasse o choque agudo do real, migrasse até o último aposento das solidões, para vibrar no diapasão da sua verdadeira música - uma escuridão anterior ao Big Bang", pontua o filósofo e escritor Juliano Garcia Pessanha, que assina o texto de orelha da obra.

"Há quatro anos eu vi meu mundo desmoronando. Sem trabalho, sem casamento, sem casa", recorda-se Evandro. Ele mudou de Pinheiros para um quartinho alugado na Avenida Angélica, em Higienópolis. Odiava tanto o novo lar que perambulava pelas ruas o maior tempo possível, diariamente, evitando o retorno.

"Então pensei: sou escritor; vou fazer disso minha literatura." Uma epifania. Escrevia aí Vim, Vi, Perdi, em que relata a história de um personagem embebido de cidade grande, absorvido pela cidade grande. E que abomina, a todo custo, a ideia de voltar para casa. "Meu Júlio César ao contrário", diz, em referência ao general romano que teria cunhado a frase "vim, vi, venci" após a batalha de Zela, em 47 a. C.

A obra ainda não foi lançada. Pela ordem de publicação, encerrará a trilogia formada pelo Minha Mãe Se Matou Sem Dizer Adeus e por O Mendigo Que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotherdam, com lançamento previsto para o ano que vem. "Todos se passam numa cidade grande. E todos consumiram um ano de trabalho metódico", conta. Por metódico, entenda: bloquinho na mão e paulistanos como inspiração, em seus gestos, diálogos e trejeitos. "A cada noite, em casa, eu passava a limpo os bloquinhos. Foram centenas deles e sei lá quantas canetas."

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