O enjeitado da Rua da Freira

A Rua Senador Feijó assim se chama, desde 1865, em memória do padre Diogo Antônio Feijó, nascido em 1784, ali abandonado em casa do padre Fernando Lopes de Camargo, que com sua irmã o batizou na Igreja da Sé. Os padrinhos moravam no fim da rua, então Rua da Freira, na esquina da Rua da Casa Santa, atual Cristóvão Colombo, caminho da senzala do Convento de São Francisco.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2011 | 00h00

Naquele canto histórico do centro, onde estão hoje a loja Suelles e o Banco Real, Feijó foi do nascimento à morte, em 1843. Diz o historiador J. J. Ribeiro: "finou-se obscuro, pobre e desconhecido em sua modesta casa da Rua da Freira..."

A geografia política de Feijó, no entanto, deu uma grande volta. Ordenado sacerdote, foi vereador em Itu, deputado às Cortes de Lisboa, em 1822, deputado geral, senador do Império, ministro da Justiça. De 1832 a 1835, morou no Sítio do Capão, no bairro da Água Rasa, onde é hoje a Unicsul. Foi regente do Império na menoridade de d. Pedro II. Eleito bispo de Mariana (MG), engavetou a nomeação e recusou a mitra.

Cumpriu um curioso destino até depois de morto. Era filho natural de uma irmã do Padre Camargo. Em 1856, um contraparente escreveu que era ele "fruto de um grande crime". Provavelmente, Feijó nascera de um incesto. Por aí, teria incomodado pouco. Mas Feijó se tornara um dos grandes do Império, o guardião do Trono. Não podia, pois, ser também o mestiço que diziam. Seria exumado três vezes.

Em duas ocasiões, para desmentir a mestiçagem, afinal comprovada. A mãe, no entanto, era de "nobilíssima raça", ressalvou um comentador. Um médico sobre ele escreveu, em 1882: "entendo não ser pecha ter entre os avós um pouco de sangue índio, que entendo muito melhor que o africano". Problema, mesmo, era o italiano, cuja imigração já começara, disse ele.

Feijó foi liberal exaltado e defendeu o fim do celibato sacerdotal. A ilegitimidade da sua origem e suas ideias foram fatores de seu estigma. Em Itu, onde iniciou a vida política, o mandão local, Goes e Aranha, considerava-o "homem perigoso e cheio de ideias criminosas de liberdade". O arcebispo da Bahia, na polêmica sobre o celibato, definiu-o como "homem de poucos conhecimentos".

Preso pelo Barão de Caxias, em Sorocaba, na Revolução Liberal de 1842, foi banido para o Espírito Santo. Caxias o desdenhou: "pelos disparates que diz, estou capacitado de que sofre desarranjo mental". Subversivo, ignorante e louco foi o perfil que do grande e ousado liberal traçaram os poderosos do Império.

Mas, em 1918, o grande paulista que foi o arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva deu-lhe túmulo de honra ao lado do Cacique Tibiriçá, circundados ambos pelos bispos sepultados na cripta da Catedral de Nossa Senhora da Assunção da Cidade de São Paulo do Campo de Piratininga, cuja obra se iniciava.

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