O engenheiro de 25 milhões de M²

Aos 84 anos, Eduardo Moraes Dantas conta sobre sua amizade com JK e Niemeyer, a aventura de construir Brasília e a idealização do Anhembi

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2011 | 00h00

Quando, no fim dos anos 1980, o engenheiro paulistano Eduardo Moraes Dantas foi chamado para construir o sambódromo do Anhembi, inaugurado há 20 anos, em fevereiro de 1991, ele já não era mais nenhum menino. Não era a primeira obra que executaria com Oscar Niemeyer; antes fizeram dobradinha em Brasília. Nem a primeira no Anhembi; foi o construtor de todo o complexo, erguido 20 anos antes. E muito menos o seu maior desafio. "Mas desde a concepção daquele espaço de eventos, ainda nos anos 1960, já pensávamos que ele precisava contemplar a alegria, o aspecto humano. Fazer o sambódromo foi como coroar todo o projeto."

Para entender um pouco a dimensão da trajetória desse profissional - que contabiliza 25 milhões de metros quadrados construídos em sua carreira - é preciso voltar um bocado no tempo. "Sou velho. Do tempo em que São Paulo não tinha nem 1 milhão de habitantes", sorri. Nascido em 1926, neto, bisneto e tetraneto de barões do café da região de Bragança Paulista, no interior, Dantas escolheu a profissão do pai, o engenheiro Renato de Moraes Dantas, para seguir. Formou-se no Mackenzie e em 1952 já tinha seu próprio escritório.

Faroeste tupiniquim. Na década de 1950, o sonho brasileiro estava no Centro-Oeste. Brasília nasceria naquele planalto seco e longe das cidades de maior densidade demográfica. "A Novacap, empresa criada para construir a nova capital, dizia que privilegiaria construtoras brasileiras com experiência. Eu já tinha erguido prédios na Avenida Paulista, como a sede da Fiesp", diz Dantas. "Achei que tinha o perfil. Coloquei meus projetos debaixo do braço e fui ao Rio oferecer meus préstimos ao Israel Pinheiro (presidente da Novacap)."

Era 1956 e o engenheiro ainda não tinha completado 30 anos. "Ele perguntou o que eu estava fazendo lá, se era em busca de estágio. Como disse que queria construir Brasília, ele riu e perguntou se eu teria coragem de viver anos acampado naquele imenso canteiro de obras." Uma hora depois, os dois estavam em um avião da Força Aérea Brasileira rumo a Brasília.

A primeira obra que encarou foi o Brasília Palace Hotel. Ficou amigo do presidente Juscelino Kubitschek, "que ia para lá todos os fins de semana, levando cantores para animar os trabalhadores e uma moças para dançar". Na inauguração do hotel, a glória maior de sua carreira. "No discurso, o presidente agradeceu o empenho deste "jovem paulista" aqui e disse que havia decidido que eu faria o Palácio do Planalto."

E aí, o maior desafio era transformar em cálculos a poesia da arquitetura de Niemeyer. "Alguns projetos pareciam inexequíveis. Mas eu era jovem, e tinha coragem." No total, foram quatro anos "morando no canteiro de obras, com 8 mil operários sob minha responsabilidade".

De volta a São Paulo, envolveu-se na concepção do Parque do Anhembi. O empresário Caio de Alcântara Machado já vinha realizando feiras comerciais no Parque do Ibirapuera. Mas precisava de um local maior. "Nos anos 1960, sobrevoei São Paulo umas 40 vezes, de helicóptero, em busca do melhor terreno."

O arquiteto Jorge Wilheim foi convidado a integrar a equipe. "Foi uma época muito emocionante da minha vida", comenta o arquiteto. "Mas o projeto tinha um nome horrível (Centro Interamericano de Feiras e Salões), não dava sigla nenhuma. Aí consultei o meu amigo (poeta) Décio Pignatari." Saiu Anhembi, em referência à designação tupi para o Rio Tietê. Parte a parte, o complexo foi inaugurado nos primeiros anos da década de 1970 - com exceção do sambódromo, que seria feito somente em 1991.

Também são de sua lavra construções importantes como o Credicard Hall, o Museu de Arte Moderna (MAM), e as sedes dos clubes A Hebraica e Sociedade Harmonia de Tênis, entre outros.

Hobbies. Mas a vida de Dantas não é só trabalho. "Desde os anos 1990, tenho dado uma desacelerada." O continuísmo da vocação para a prancheta segue na família, com seu sobrinho, o engenheiro Renato de Moraes Dantas Neto. Dantas casou-se em 1972 e vive com a mulher, Helena, nos Jardins. O casal tem três filhas.

Esportista desde a adolescência - "já fui campeão de muitas modalidades", gaba-se -, até dois anos atrás praticava salto hípico. Na juventude, jogava tênis, futebol e fazia atletismo. A música também sempre esteve presente em sua vida. "Toco piano desde os 6 anos", conta. "Até hoje, diariamente."

Outra de suas paixões são as carruagens. "Quando eu era criança, a região da Avenida Brasil era toda de terra. Eu ficava olhando os ricos da cidade desfilando com suas carruagens e imaginando que um dia teria a minha." Não comprou só uma, mas 25 - em sua coleção há exemplares ingleses, alemães, austríacos, franceses, americanos... Ficam todas em um haras no município de Monte Mor, a cerca de 100 quilômetros da capital paulista.

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