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Fernando Reinach
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O Ebola e a evolução da humanidade

Estamos enfrentando o espalhamento descontrolado de um vírus capaz de matar até 50% das pessoas infectadas. É uma tragédia. O vírus Ebola não é novo e os surtos anteriores foram rapidamente contidos. Desta vez é diferente, a doença se espalhou pelas cidades, tornando as medidas de contenção difíceis de serem implementadas. A Organização Mundial da Saúde acredita que o número de vítimas ainda vai crescer muito antes de começar a diminuir.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2014 | 02h04

Uma semana após a infecção pelo Ebola, os sintomas são facilmente confundidos com os de uma gripe forte. Mas, aos poucos, os pacientes pioram. Em parte dos pacientes, a doença regride e desaparece mesmo com os tratamentos simples disponíveis no sistema médico dos países afetados. Mas, em outra parte, a doença progride e a pessoa sofre hemorragias. Quando isso ocorre, a taxa de sobrevivência diminui muito. O resultado final é que aproximadamente 50% dos pacientes morrem, 50% sobrevivem. Ainda não se sabe os fatores que determinam quem sobrevive e quem morre. Essa divisão pode ser por causa de uma melhor condição física ou mesmo uma maior resistência ao vírus. No pior dos cenários haveria uma redução de 50% no número de indivíduos da população afetados.

Quando ocorre uma mudança brusca no meio ambiente, como é o caso do surgimento de um novo vírus ou a redução drástica na quantidade de alimento, é possível observar em tempo real o processo de seleção natural descrito por Darwin. No arquipélago de Galápagos, na Ilha de Daphne, existia uma população de pássaros que se alimentava de uma grande variedade de sementes. Em 1977 o ambiente mudou subitamente. Naquele ano não choveu. As flores não apareceram e as sementes não foram produzidas. Os cientistas que estudavam os pássaros observaram a fome se espalhar pela ilha. Os pássaros deixaram de reproduzir. Mais de 60% da população foi dizimada.

Os cientistas acompanharam o destino dos pássaros e tentaram descobrir o que teria determinado a chance de sobrevivência dessa minoria de pássaros. Seria a sorte, uma melhor condição física, ou uma capacidade diferenciada de lidar com a escassez de alimentos? Sobreviveram os pássaros com bicos um pouco maiores, coisa de um milímetro a mais. E a razão ficou clara. Os bicos maiores permitiam a esses pássaros abrir sementes mais duras, as últimas a acabar. Os pássaros de bicos menores morreram de fome quando as sementes mais moles acabaram. Os de bico ligeiramente maior sobreviveram comendo sementes duras. Nos anos posteriores, como só os pássaros de bicos maiores procriaram, o tamanho médio dos bicos de todos os pássaros aumentou. Pronto, por meio da seleção natural os pássaros de Daphne se tornaram mais tolerantes às secas. É a seleção natural em ação.

Se tudo correr bem, nos próximos meses teremos uma vacina capaz de imunizar as pessoas contra o Ebola. A epidemia será controlada, a população vacinada e o risco de uma nova epidemia grandemente reduzido. Esses países não terão sua população reduzida em 50% e muito sofrimento será evitado.

Mas se ainda vivêssemos na Idade Média, antes do desenvolvimento da medicina moderna, dos medicamentos sofisticados, da virologia e das vacinas, provavelmente a epidemia se espalharia e observaríamos na África uma situação semelhante à da Ilha de Daphne. A seleção natural entraria em ação. Entre os sobreviventes provavelmente estariam pessoas mais resistentes ao vírus. E se essa maior resistência tivesse origem genética, essa população, ao se reproduzir nas décadas posteriores, disseminaria os genes que dão resistência ao Ebola. E a evolução seguiria seu curso.

Mas o homem pode contar com a tecnologia das vacinas e a seleção natural será evitada. Ainda bem.

O mais interessante é que este exemplo demonstra de que maneira grande parte da tecnologia desenvolvida pelo homem tem como função diminuir a ação das forças da seleção natural sobre o ser humano. É fácil imaginar como a agricultura e a estocagem de alimentos evita episódios agudos de fome, como o casaco ameniza mudanças abruptas de clima, como as vacinas reduzem a pressão dos vírus e os antibióticos, a pressão das bactérias. Hoje, graças à tecnologia, não sofremos de maneira direta e as mudanças ambientais que são uma das forças motoras da seleção natural e da evolução das espécies. Mas ao evitar as forças da seleção natural estamos retardando a evolução do Homo sapiens.

De certa maneira podemos entender o desenvolvimento tecnológico como a estratégia de um animal inteligente para evitar as pressões da seleção natural. Substituímos a evolução darwiniana pela evolução tecnológica. O lado negativo da troca é que o ser humano nunca vai se tornar naturalmente resistente ao Ebola.

É BIÓLOGO

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