O drama de Elaine, que viveu a tragédia 2 vezes

Em apenas três dias, a cozinheira gaúcha de 61 anos passou pelo desespero de velar e enterrar dois filhos - um morreu na boate e outro no hospital

O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h02

Ela sofreu com a perda do marido, Elói Gonçalves, há dois anos e, dois meses atrás, com a morte da mãe, Nair, depois de longa internação. Na semana passada, Elaine Marques Gonçalves, de 61 anos, moradora de Santa Maria (RS), voltou a viver um drama familiar arrasador: perdeu dois dos quatro filhos em um espaço de três dias, vítimas do incêndio na boate Kiss, que deixou 236 mortos e mais de 140 feridos.

A primeira agonia foi achar o corpo do filho Deivis, de 33 anos. Elaine passou a noite de domingo velando Deivis ao lado de outros 16 caixões de vítimas. Naquele ambiente de comoção, o coração da cozinheira, que criou os filhos com dificuldades, continuava ainda mais apertado pelo grave estado de saúde do filho mais novo, Gustavo, localizado por ela entre os feridos.

Após saber da tragédia pelo telefonema de uma amiga, às 9 horas, Elaine começou a busca, chegando primeiro a Gustavo, que recebia os primeiros socorros. Levado para Porto Alegre com queimaduras em 70% do corpo, intoxicação pulmonar e duas paradas cardíacas, Gustavo precisava de companhia familiar na viagem. Elaine foi chamada. Mas disse que não poderia sair de Santa Maria antes de achar Deivis, o que só aconteceu à tarde.

Deivis e Gustavo, ambos solteiros, moravam com ela. Deivis era muito apegado à mãe. "Eles não eram muito de festa", dizia ela, ao lado do caixão. Atendente de farmácia, o rapaz trabalhava em uma loja havia três meses. "Depois que o pai morreu, eles ficavam muito em casa. Na noite de sábado, Deivis disse: mãe, nós vamos dar uma volta lá (na boate). Se não estiver bom, voltamos", lembrava Elaine. "Saíram de casa arrumados, prontos para se divertir. E não voltaram", repetia. "Quando esse meu filho que está em Porto Alegre se recuperar e disser que quer sair, o que eu vou dizer para ele? Não vá? Ou eu vou com ele?" Elaine não esperava pelo pior. Mas, apenas dois dias após enterrar Deivis, seria novamente golpeada.

No começo da noite de terça-feira, Gustavo não resistiu e se transformou na primeira vítima da tragédia a morrer longe da boate. Acompanhada pela nora, Simone, Elaine ouviu de uma assistente social que tinha perdido o segundo filho. Dona de casa, Elaine trabalhou como manicure e, nos últimos tempos, segundo a nora, fazia salgados e doces para viver. "É uma pessoa muito forte, uma guerreira", resumiu a nora anteontem, depois do primeiro dia de descanso após cinco de sofrimento. / PABLO PEREIRA

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