O diário de Lore Dublon

Leia a íntegra do diário da garota que registrou as turbulências da guerra em meio a sonhos juvenis

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2010 | 16h21

 

 

Março, 1941:

 

 

“Querido Diário:

 

Estou agora no meu décimo quarto ano de vida, mas já me aconteceram tantas coisas... Você já deve ter farta experiência nessas coisas, pois são tantos os que recorrem a você para descarregar seu coração.

Sete meninos já me pediram para que ficasse junto com eles. Sempre falei que não, mas entendi que em algum momento precisaria começar. Então, disse ‘sim’ para Bernard. Gosto muito dele. Todas as meninas me invejam. Todas acham ele bonitão. Ele é terrivelmente simpático! Quando sorri para mim, meu coração dispara. Todos os dias, ele me espera fielmente para irmos juntos ao colégio! Nós nos matamos de dar risadas. Acho que Marcel está com ciúme, ele me fita sem parar. À tarde, brinco com ele e outros meninos de 'cachette-caché' (esconde-esconde)! Lonette está de mal comigo, suponho que por causa dos ‘gamins’ (meninos), mas eu não me importo. Tanto melhor!”

 

 

 

lº de abril de 1941:

“18 horas. Parada na janela, esperando o Bernard para brincar. Ontem, quando nos despedimos, ele me deu a mão pela primeira vez, e disse: ‘Au revoir, Lorke’. A Anna está louca por ele. (Minha mãe quer que eu aprenda a cerzir.) Pfff...”

 

 

 

3 de abril de 1941:

“Ontem, brinquei outra vez com Bernard. No sábado, entregarão o boletim e teremos as notas das provas trimestrais. Será que continuarei a ser a segunda da classe?

Hoje à tarde, estamos livres. Queremos brincar juntos. Pena que a Anna também virá. No caminho para a escola, a gente ficou tirando sarro das pessoas. Eu só fico dando risada. Ele quer passar as férias da Páscoa na Holanda, onde tem parentes!! Ontem à tarde, enquanto as outram crianças iam para a missa, eu fiquei e ajudei ‘Ma soeur Josephine’ (irmã Josephine) a cuidar do jardim. Tenho meu próprio canteirinho de ‘primaveras’.”

 

9 de abril de 1941:

“Passei pelos exames, com as seguintes notas: três distinções, por bom comportamento, atenção e boas habilidades manuais. Sou a segunda da classe, tenho um quarto de pontos a menos do que a primeira. Evi é a quarta.

Neste sábado, fará três semanas que estou com o Bernard. Por que será que ele me prefere? São tantas as meninas que correm atrás dele. Ontem, B. e toda sua turma foram jogar futebol na 77. Assim que as meninas os viram, meia dúzia delas começou a pular corda por lá, cantando e mencionando sempre B. nas canções. Gilberte, Marie e eu estávamos assistindo ao jogo de futebol. Nós três ficamos com bastante raiva dessas atrevidas. Apesar de perceber que B. gosta de mim, tenho medo de que ele se entusiasme logo por outra menina e me deixe a ver navios!!!!

Bernard é o 6º de 30 alunos. Ele ama sua ‘patrie’ (pátria) acima de tudo, gosto muito disso. Ele tem muito boas maneiras (o que tranquiliza minha mãezinha).”

 

 

 

10 de abril de 1941:

“Ontem de manhã, me foi oferecido uma seresta embaixo da janela. B., com o ‘Comprido’, Marcel e mais o ‘Gordo’. Parados na frente de casa, começaram a cantar a ‘Serenata Sem esperança’.”

 

 

 

11 de abril de 1941:

“Brinquei a tarde toda com B. e outros, até as 18h30. Hoje faz três semanas que eu disse ‘sim’!!

 

 

 

16 de abril de 1941:

“Ah, sim! Helmuth S. está aqui agora. Um cara bem bonito. Tem 19 anos e convidou-me para ir ao cinema um dia desses. Enviou-me uma carta pelo senhor Fet. Só que o macaco entregou para minha mãe e claro que a mãezinha não concordou. Coitado do cara. Certamente ficou me esperando! Não pude avisá-lo porque o senhor F. só apareceu às 14 horas. É o primeiro homem que me corteja!!!

Hoje à tarde veio aqui em casa o tio Erich e contou-me que Helli (Helmuth) nem estava em ‘hall’ (incompreensível), então foi só um pretexto para estar comigo. Eu prometi bolinhas de gude para Bernard. Tive que dar uma boa gargalhada, vendo ele fumar, enquanto brincava com as bolinhas.”

 

 

 

19 de abril de 1941:

“Que roubada!! Amanhã, chega Helli com seus pais. Já estou começando a ficar vermelha.”

 

 

 

30 de abril de 1941:

“Bernard foi embora... Sem se despedir. Como posso entender isso?!? Ele partiu no dia 29. Por que não me disse ‘adeus’? Ele estava tão impedido mesmo? Não teve oportunidade de fazê-lo?

‘Do júbilo celestial à tristeza mortal é sina da alma que ama’ (Goethe)

 

 

 

11 de maio de 1941:

“Dia das Mães! Bernard ainda não me escreveu. Acho que ele não sabe meu sobrenome. O caminho para a escola é terrivelmente tedioso sem os rapazes. Desde que Bernard viajou, eles não esperam mais por mim. Pergunto-me se o B. lhes proibiu de fazê-lo. Ah, se ele voltasse logo. Na terça, fará duas semanas. Para mim é como se fosse dez vezes mais. Aprendi a jogar Rommei.”

 

 

 

26 de maio de 1941:

“Sozinha... Uma eternidade (para mim)... Por que ele não me escreve? Será que tem outra? Você compreende, caro diário, a palavra ‘Sozinha’? Sem amor? Não!! Só aquele que passa por isso. Como a vida é monótona. Desculpe, perdoe mil vezes meus garranchos. Mas estou sentada na janela, de anágua, esperando que a água ferva. Boa noite. Será que sonharei com ele!?”

 

 

 

10 de maio de 1941:

“Estou doente. E super chateada. Então, fiz umas rimas:

 

I

J'attends

Tristement

Son retour

Pours toujours

Je ne veux pes le croire

Que dans sa memoire

Il m'a oublié tout à fait

 

II

Je pense à lui

Jour et nuit

Très tendrement

Et impatiant

O revient mon bien aimé

Vers toi vont toutes mes pensées

les plus aimables et les plus tendres

 

* Tradução:

I

Esperando

Lamentavelmente

Seu retorno

Para sempre

Eu acredito

Em sua memória

Ele esqueceu completamente

 

II

Eu penso nele

Dia e noite

Ternamente

E recebê-lo

Ó meu amado, retorna

A todos vós dirijo o meu pensamento

A proposta mais amável

 

Talvez aconteça de você voltar para mim. Me darás teu coração para sempre. Como me prometeste num dia feliz. Joseph quis saber de mim. Será que me visitará logo agora, que sabe que estou doente? Penso que o Bernard ainda ficará fora durante as férias de verão. Oh, ainda taaaanto tempo!”

 

 

 

21 de agosto de 1941:

“Não é mais Bernard, é Joseph! Nascido em 26 de agosto de 1926, exatamente um ano mais velho que eu. É muito lindo, charmoso, um verdadeiro cavalheiro. Realmente, possui todas as qualidades que se poderia desejar em um jovem. Não tenho razão, prezado diário, de acabar com B. Bastante tempo esperei por ele. Joseph ainda está, justamente com minha amiga Suzanne. Há muito tempo, ele me disse que a amava sobre todas as coisas. Mas agora começa a amar também a mim. Sua varanda é exatamente em frente à minha, então ficamos acenando um para o outro, e nos enxergamos através de binóculos.

Fundamos um clube, que chama S.V.S.: Schrik van Schenk. Ao clube pertencem Joseph, Suzanne, Isidor, Danielle, Eve e eu. Cada dia 15, depositamos um franco. No outro dia, fomos juntos ao cinema. Nós, as meninas, fomos na frente, porque os ‘boys’ foram comprar livros. Quando chegaram ao cinema, berraram nossos nomes muitas vezes, até encontrar-nos. Muitas vezes, vamos juntos ao bosque, para colher amoras. Acendemos uma fogueira de batatas e nos divertimos espetacularmente.

A Suzana não ama o Joseph, que perguntou se ela não queria dar-lhe um beijo, ela disse isso para D. Ao passo que eu ficaria tão contente se ele pedisse um beijo para mim... Sim, as naturezas são bastante diferentes.

Nesta entrada, Lore colou um bilhete do Cinema Pax, de Bruxelas, e escreveu: “Aqui está um ingresso de cinema, como lembrança de um belo dia.” Ao lado, a assinatura de Joseph.

 

 

 

19 de outubro de 1941:

“Agora tenho 14 anos. Com Joseph não tenho brincado mais, desde que começou a escola. Ele estuda seu latim com muito empenho. Às vezes tenho vontade de arrancar as páginas escritas do meu, porque tenho medo que alguém leia essa baboseira toda. Eu tenho muito pêlo no joelho, o que significa que terei um esposo rico. Por mim... No bonde, vi um rapaz lindo, que também ficou olhando para mim. Recém tenho 14 anos, e já tantos amores infelizes. Durante a noite, quando acordo, fico pensando no Marcel, Bernard Verhulst, Joseph Devos e tantos dos que não sei o nome.”

 

 

 

21 de outubro de 1941:

“’Pas de nouvelle.’ (Sem novidades.) Ontem vi o Jef (Joseph), trabalhando no seu quarto. A porta da varanda estava aberta. Na frente, também há janelas, e é possível ver tudo muito bem. Depois, não o enxerguei mais. Peguei o binóculo e percebi que ele também me observava do outro lado. Joseph Devos, um nome tão pouco poético, eu diria, para um amor tão romântico.”

 

 

 

20 de dezembro de 1941:

“Estou muito feliz. Começaram as férias de Natal. Resultado dos exames: a segunda da classe, com três distinções: bom comportamento, atenção, excelência. Aprovação com louvor. Combinei com Simon e Raymonde para irmos ao cinema. Sozinha em casa, sentada na janela, com um café gelado e dois pedaços de bolo (de farinha branca) e uma maçã, esperando o leiteiro. Provavelmente não voltarei ao colégio depois das férias, porque o ensino é obrigatório só até os 14, ou aos 16 anos. Suzanne mudou-se da rua Chernest, 36. Ela não é mais minha rival, mas tampouco é minha amiga. Será que o Jef me pertence agora exclusivamente? Anne Deutsch partiu.”

 

 

 

08 de janeiro de 1942:

“Bernard escreveu!!! Vou responder imediatamente. Montanhas de neve. Visitei Suzanne na sua nova casa, bem agradável. No outro dia, no bonde, um verdadeiro senhor ficou fixando os olhos em mim o tempo todo. Fui com a Evi na ‘Polyfoto’, mandamos fazer 48 fotos. Bernard mandou-me beijos na sua carta... Helli não poderá mais vir. Ele está num Lager (campo de concentração) com o pai há cerca de três meses. Lamento muito. Fui ao cinema com Suzanne, vi o filme mais lindo da minha vida: ‘Kora Terri’, com Marika Rökk e Joseph Sieber. Ela, Marika Rökk, faz um papel duplo. Quero entrar logo no Bund (Liga) Sionista. Porque eu também anseio ir à Palestina, terra de nossos antepassados. Quero virar devota. O bom Deus me ajudará nisso. Tomara Deus que me possa encontrar com os queridos avós lá. Então também poderei comer Kosher. Carne de porco não como mais desde a terrível noite em La Panne. Quando aconteceu o bombardeio, o fogo tomou conta do quarteirão e chegou a cinco casas da nossa. Em frente, também pegou fogo. As bombas caíam interminavelmente. Da entrada da cidade, os alemães atiravam para dentro. Os ingleses em fuga estavam no outro extremo. Na frente da nossa casa, diretamente, estava montada uma Metralhadora. Atrás da casa, no porto, os ingleses em seus navios também atiravam. Para comer, não tínhamos nada além de ovos duros, que por muito tempo não aguentei mais ver, e chocolate. Estávamos sentados num porão, com 32 pessoas muito devotas e durante toda a noite recitamos nossa Oração dos Mortos.

Nesse momento, eu prometi para mim mesma que se escapássemos inteiros desse horror, não comeria nunca mais qualquer pedaço de carne de porco.

Vou te contar rapidamente, diário, como foi nossa fuga:

Manhã de guerra: acordada por tiros e disparos fortíssimos no ar. Papai disse: Guerra! Todos vestidos, ficamos acordados no corredor, até que os tiros cessassem. Telefonamos para o tio Mäxchen (diminutivo de ‘tio Max’), mas ninguém respondeu. Chegou uma ordem para que todos os refugiados de nacionalidade alemã se apresentassem. Nós já havíamos perdido a cidadania alemã, mas nos apresentamos assim mesmo. Chegando lá, as mulheres e crianças foram dispensadas. Os homens ficaram. Nos despedimos lá pelas 14 horas. Às 17 horas, papai e o tio Erich voltaram. Os sem cidadania (expatriados) foram dispensados. Quase todos os moradores da nossa rua, tomados pelo pânico, estavam fugindo em direção à França. Nós fomos para a casa do tio Mäxchen, nos arredores. Pela primeira vez, a casa toda estava às escuras. Fomos consultá-lo para o que fazer: ficar, ou partir também? A estrada que conduzia a Dilbeek estava preta de gente. Ele disse que não queria nos influenciar, mas que ele ficaria. Isso foi no sábado. Na terça, quando chegou o tio Erich, o tio Max já estava sentado no carro e disse que deveríamos ir embora imediatamente. Tio Erich retornou tão rápido quanto podia, parte de carro, parte andando, porque os bondes já não funcionavam. Duas horas mais tarde, ele golpeou freneticamente a nossa porta. A campainha já não funcionava. Dizendo: preparem as malas imediatamente, vamos para a Gare du Midi (Estação Central). A estação estava toda preta de gente, querendo embarcar. As passagens eram de graça, assim fomos de primeira classe. Mas foram16 horas, em pé o tempo todo. Depois de Ostende não senti mais minhas pernas.

Na estação, as irmãs da Cruz Vermelha aguardavam os refugiados, ou, mais bonito, os ‘evacuados’, com bebidas. Almoçamos no restaurante fino de um hotel. (No dia seguinte, já havia sido destruído.) Naturalmente, foi impossível arranjar um quarto decente.

Por fim, num bar do porto, conseguimos dois quartinhos. Fomos dormir às 21 horas para descansar bastante. Às 21h30, caiu a primeira bomba. As janelas se abriram de golpe, por causa da pressão. As cortinas esvoaçaram. Nos vestimos num piscar de olhos para descer até o porão.

O bar ficava a dois minutos da estação. Ficamos todos na diminuta adega, no porão, com o cão da dona do bar. O homem deitado ao meu lado beijava as pontas dos meus dedos sem parar. No outro dia, Ostende oferecia um aspecto lamentável por causa do bombardeio. Na cidade, ouvimos que não era bom ficar em Ostende mesmo, então seguimos para La Panne.

No momento em que tentávamos tomar o trem praiano, tocou a sirene de alarme. As pessoas que estavam dentro do trem queriam sair, e nós, ainda do lado de fora, tentando entrar. Empurrões, uma confusão medonha. Finalmente conseguimos subir.

No caminho, cruzamos com o tio Max, que gritou: ‘Pension de L'Avenue’, em Dunquerque, é meu endereço. Ficamos lá por três dias! Depois, outra partida. Foi duro deixar a linda moradia, que a dona nos cedera, porque a pensão estava abarrotada."

 

 

 

Tradução: Irene G. Freudenheim

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