O diário da ajuda no nordeste

Equipe de 32 bombeiros paulistas registra a dificuldade para chegar às cidades destruídas pelas chuvas em Alagoas

Cristiane Bomfim, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

O dia em que veículos 4x4 não conseguiram vencer a lama e foram substituídos por mulas na entrega de cestas básicas. Quando cães farejaram corpos de animais em decomposição. O domingo em que bombeiros conseguiram levar ajuda a famílias isoladas por mais de uma semana. A rotina dos 32 bombeiros de São Paulo enviados a Alagoas há 11 dias para ajudar os municípios do Estado atingidos pelas fortes chuvas no dia 19 de junho é registrada toda noite em um diário eletrônico.

Os relatos são escritos na base do grupo montada em Maceió, distante 30 minutos de Branquinha, uma das cidades mais atingidas e ponto inicial de ajuda. "Fiquei impressionado. Parece que a cidade foi atingida por um tsunami", resume o capitão responsável pela missão, Henguel Ricardo Pereira.

Também são enviadas para o comando da corporação fotos das cidades destruídas, dos trabalhos de busca e reconstrução e da população local. "Choro todo dia. A equipe também tem chorado muito. Esse trabalho é uma lição de vida porque é muito sofrimento. São famílias destruídas, muitas pessoas desaparecidas, doentes, com fome. Isso dá mais vontade de trabalhar, mas a gente sabe que não pode fazer tudo", diz Pereira.

Como exemplo, ele conta que, na quinta-feira passada, enquanto trabalhava na reconstrução de uma ponte em Branquinha, uma menina aparentando 10 anos perguntou se ele já havia encontrado sua mãe. "Disse que estava procurando. Ela pediu para eu não desistir. Mas, infelizmente, não dá mais para encontrar alguém vivo."

Buscas. Os bombeiros de São Paulo foram os primeiros a chegar a Branquinha, nos dias 23 e 24 de junho. São os responsáveis pelas buscas aquáticas em oito municípios ? além de Branquinha, Murici, Messias, Rio Largo, Santa Luzia do Norte, Satuba, Jacuípe e Campestre, como diz o diário do dia 25: "Cientes de que até o momento não havia sido realizada qualquer operação de busca por via aquática pelos demais órgãos antes da nossa chegada, distribuímos patrulhas embarcadas para reconhecimento do Rio Mundaú."

Quatro cães farejadores ? Jade, Conan, Bela e Milka ? ajudam no trabalho de localização de corpos. "Foi dada continuidade às buscas de corpos, com o auxílio dos cães. As edificações vistoriadas foram marcadas com as iniciais SP...", diz relato do dia 29. Até sexta-feira passada, os bombeiros haviam encontrado três corpos. Um deles, de um homem, foi achado no dia 28. "Durante as operações de buscas que estavam sendo realizadas na região conhecida como Lagoa do Mundaú, foi localizado um corpo de um homem aparentando 40 anos, que foi conduzido ao órgão competente para identificação e demais providências."

No dia 27, a equipe teve mais trabalho que o previsto para entregar cestas básicas aos desabrigados, por causa de uma chuva que durou o dia todo e impediu que até carros com tração 4X4 prosseguissem nas estradas enlameadas. "O uso de helicóptero foi descartado por todos os órgãos procurados, em razão da baixa visibilidade e a chuva forte... Ficou acertado o empréstimo de mulas, para que pudéssemos cumprir a missão", diz o diário. No dia seguinte, conseguiram chegar de helicóptero a duas localidades isoladas. O efetivo dos bombeiros em Alagoas é de 1.238 pessoas ? cerca de mil estão trabalhando nas regiões alagadas.

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