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'O desafio de um artista é o próximo personagem'

Lilia Cabral fala sobre o sucesso de Griselda, a carreira, vida em família e o que vem por aí

Sonia Racy, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2012 | 09h57

Sucesso, para ela, é fazer um bom trabalho. Aos 54 anos, 31 de carreira, Lilia Cabral está mais do que vacinada contra as armadilhas da fama. E olha que já viveu alguns personagens inesquecíveis. Antes da Griselda de Fina Estampa (seu primeiro papel principal), a Tereza de Viver a Vida e a Marta de Páginas da Vida lhe valeram indicações ao Emmy, o Oscar da televisão. E na estante de casa a atriz tem três troféus Mambembe e um APCA, além dos prêmios Shell de 1993 – pela peça Casada, Solteira, Viúva e Divorciada – e do Festival de Cinema Brasileiro de Miami de 2009, por Divã. Nada que se compare ao prazer do dia a dia no set.

Lilia decidiu ser atriz aos 16 anos, época em que entrou na Escola de Artes Dramáticas da USP. Estreou na telinha em 1981, na novela Os Imigrantes, de Benedito Ruy Barbosa, na Bandeirantes. Também lá faria Os Adolescentes, de Ivani Ribeiro. Em 1984, quando atuava na peça Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, foi convidada pelo diretor Dennis Carvalho a integrar o elenco de Corpo a Corpo, na Globo – de onde não saiu mais.

Daí por diante, como ela mesma costuma dizer, "foi um passo de cada vez". E o que é mais importante: sem tropeços. "Tudo aconteceu na hora certa na minha vida", revela.

Paulistana da Lapa, Lilia mora há mais de vinte anos no Rio de Janeiro. E garante que deve muito do que é à engrenagem familiar. O marido e a filha, Giulia, nascida quando a atriz contava 39 anos, dão o apoio de que ela tanto precisa para ir atrás de mais e mais desafios.

Por telefone, diretamente do Projac, Lilia aproveitou uma brecha entre as gravações de Griselda (uma Amélia do século 21) para falar com a coluna.

O que a Griselda tem de personagens que você já interpretou?

Acho que não tem muita coisa, não (risos). Já fiz personagens com bom caráter, mas a Griselda é totalmente desprovida de vaidades – incapaz de conhecer até mesmo sua beleza interior. Com esse tipo de personagem eu nunca tinha deparado. Por exemplo, a Catarina (em A Favorita) era uma personagem humilde, mas tinha família, né? A Griselda, não. Ela é o foco principal daquela estrutura. Isso foi o maior desafio quando comecei a pensar nela. Tive de começar do zero, não havia em que me espelhar.

Você aceitou o papel de cara?

E dá para falar não para o Aguinaldo Silva? (risos) Quando ele me disse que queria que eu fosse a protagonista… nem pensei em nada. Aceitei na hora. Já havia trabalhado com o Aguinaldo, é um mestre. Joga muito bem com os personagens. Não quis nem saber se o papel era de mocinha ou de vilã. Depois… (risos) veio aquela paúra, né? (risos) "E agora, meu Deus, como é que eu faço?".

A Griselda é 100% ética, tem caráter. Até que ponto esse tipo de personagem influencia ou muda a sociedade?

Não fizemos a personagem pensando nisso, não. "Vamos mudar a cabeça das pessoas…". Não, a gente acredita no personagem. O que acontece é que, quando ele vai de encontro aos anseios do público, funciona. Se o personagem cai nas graças dos telespectadores, se torna uma força popular. E quando isso acontece, acho que pode mudar, sim. Porque os valores da Griselda são universais. É matemática pura: dois mais dois são quatro. A moral não muda, a ética também não. São valores que não podem conviver com o "jeitinho".

Ajuda o fato de que o Aguinaldo faz isso sem pieguice.

Ah, com certeza. Isso é superimportante. A forma como ele escreve não transforma o assunto em bandeira, ele não quer (nem tenta) ser professoral. O telespectador é apresentado ao problema e o traz para a sua realidade. Acho que isso funciona, sim.

Como é a reação do público quando te vê na rua?

Ouço muito frases do tipo "eu estava sentindo falta de um personagem assim". Por exemplo, no dia seguinte à cena em que a Griselda se entrega a um homem depois de mais de 15 anos – ela diz "eu tinha me esquecido de como é bom ser mulher" –, as pessoas que me encontravam na rua vinham conversar a respeito. Foi ótimo perceber que elas gostaram da maneira como a cena foi trabalhada, porque é real, não é uma bandeira.

A Globo faz pesquisas para ver como estão os personagens das novelas. E, às vezes, o resultado promove alterações de curso no roteiro. Isso aconteceu com a Griselda?

Nada. Tudo o que eu li na sinopse foi mantido. Mesmo quando a trama avança na mudança da personagem, quando ela vai se tornando mais mulher, conseguimos fazer essa passagem de uma forma que eu considero perfeita. Foi muito planejado, sem cair na armadilha de encher a Griselda de penduricalhos (risos). Chegamos a uma elegância sem excesso, que condiz com os valores da personagem.

Esse é seu primeiro papel principal em novelas. Acha que veio no momento certo?

Tudo na minha vida veio no momento certo. Incluindo a minha filha, que eu tive com 39 anos. Muita gente perguntava se eu não queria ter tido filhos antes. Olha… a minha história está sendo contada desse jeito. Olhando pra trás, acho que não mudaria nada. Quer dizer, colocaria mais umas coisinhas, né? (risos) Mas eu respeito muito a minha trajetória. Tudo que vivenciei foi positivo no sentido de que nunca dei passo para trás. Se me coube agora ser protagonista, foi maravilhoso. Mas também sei que fui abrindo esse caminho – devagar e sempre. Acho que todo mundo precisa entender o ritmo em que as coisas acontecem. Senão a gente fica infeliz.

Desde o começo (em 1981), que tramas mais marcaram a sua carreira?

Os Imigrantes, com certeza. Depois, Vale Tudo e Tieta (também do Aguinaldo Silva). História de Amor, do Maneco, foi outra que me marcou. Além, claro, de Páginas da Vida e Viver a Vida. Ah, e A Favorita!

Você foi indicada ao Emmy duas vezes. O que isso muda no dia a dia do ator?

Saber que você foi selecionada em meio a 800 atrizes do mundo inteiro… isso já é um negócio que te deixa boba (risos). Mas se você começa a se achar o máximo, aí acaba não indo a lugar nenhum. Eu tenho consciência de que tento sempre fazer o melhor. Mas o trabalho é de equipe. Isso é algo que não muda. Se o ator começa a se achar mais importante que a equipe, não funciona. Pra mim, a indicação me dá mais responsabilidade. "Fui até aqui e agora vou a um novo desafio". Quando a novela acabar, vou olhar para trás e ver tudo o que fiz. Só aí vou poder fazer um balanço. E vou me sentir feliz, como já me sinto, ao ver o trabalho completado. É meu jeito de ver as coisas… acho melhor assim, né? (risos)

Você se inspira em algum ator ou atriz do passado?

Cresci vendo Dina Sfat, Glauce Rocha, Cleyde Yáconis, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro. Aliás, na época em que eu estudava na Escola de Artes Dramáticas, a Fernanda estava em cartaz com a peça É…, do Millôr Fernandes. Você acredita que eu vi dez vezes? Chegava lá com a carteirinha da EAD e pedia pra assistir – me deixavam sentar no chão. Aprendi a fazer comédia assistindo às grandes comediantes. Por exemplo, Lucille Ball (que eu via na TV), Arlete Salles, Eva Wilma. Todas me ensinaram tanto, são capazes de cenas inesperadas, maravilhosas.

Prefere drama ou comédia?

Não sei… Gosto bastante de fazer comédia. Mas nada como um bom drama! (risos) É tão bom quando a gente ouve "nossa, você quase me mata de rir ontem"… Mas também é ótimo quando dizem "nossa, ontem você me fez chorar!".

Qual o custo pessoal de um personagem de tanto sucesso como a Griselda? Como você lida com isso?

Sempre tive cuidado com a minha vida privada – meu marido, minha filha, meus amigos. Sou muito reservada, não gosto de badalação. Tomo muito cuidado com a minha exposição. Sempre fui assim. Só que agora a evidência é muito maior… "Lilia Cabral carrega sacola de supermercado" (risos), "Lilia Cabral se encontra com não-sei-quem no shopping"… O que se vai fazer? E eu já sou uma senhora (risos). O importante é que não deixei de fazer o que gosto de fazer. Se bem que nunca saí muito. Principalmente em época de novela, porque o ritmo de gravação é muito violento.

Você recebeu o prêmio de Personalidade do Ano, em 2011, das mãos da presidente Dilma. Ela é noveleira?

É noveleira! (risos) É, sim. Aliás, todos os que estavam lá, governadores e ministros, vinham falar sobre a Griselda. A gente não imagina a presidente assistindo novela. Isso, claro, me envaidece. E receber o prêmio das mãos dela foi inesquecível.

Que dicas a Griselda daria a Dilma para moralizar o País?

Ah, que olhe para a educação. A Griselda procurou formar os filhos, porque sabe que a educação é a base, o começo de tudo. Sem educação não se pode construir um país.

Você aproveitou o discurso para falar sobre a produção cultural no Brasil…

Pude reverenciar o que está sendo feito pela cultura. E pedir para que façam mais um pouquinho (risos). A gente trabalha pra isso – na TV, no cinema e, principalmente, no teatro.

É difícil fazer teatro no Brasil?

Muito. E cada vez mais. Porque tudo encareceu, e precisamos de patrocínio sempre. Apesar da Lei Rouanet.

Você é religiosa?

Católica.

Praticante?

(pensa) Olha, eu rezo bastante. (risos) E minha dedicação à Nossa Senhora de Fátima não é falsa, não. É verdadeira.

Como é a Lilia em casa?

Ih, minha vida é falar sozinha (risos), decorando texto. Minha filha estuda de manhã, meu marido também sai cedo. Então, ficamos eu e o roteiro até a hora de vir trabalhar. No dia em que a gravação começa cedo, passo menos tempo falando sozinha. Graças a Deus, minha família me apoia. Essa engrenagem funciona e me ajuda muito. A gente vai levando assim…

Quais os próximos capítulos de Lilia Cabral?

Estou indo para São Paulo em agosto, com a peça Maria do Caritó – do João Fonseca, texto do Newton Moreno. Lá no Teatro da Faap. E tenho um filme também para este ano. Chama-se Julio Sumiu, baseado no livro do Beto Silva.

Vai dar tempo de descansar depois da Griselda?

Uns três meses. Eu também sou filha de Deus, né? (risos)

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