'O D., não. Ele não, é tão bonzinho', diz professora baleada por aluno

No dia seguinte à tragédia em São Caetano, relatos sobre estudante só destacam o caráter exemplar; motivos seguem desconhecidos

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h03

Surpresa e chocada. Foi assim que a professora Rosileide Queiros de Oliveira, de 38 anos, se sentiu quando soube quem foi o autor do disparo feito contra ela em uma sala de aula de São Caetano. "O D., não. Ele não, é tão bonzinho", disse a vítima ao namorado Luiz Eduardo Hayakawa.

Até ontem, Rosileide, que teve de engessar a perna por causa de um ferimento na rótula, não sabia que D. havia cometido suicídio. Os parentes não sabiam quando nem como iriam contar.

A irmã da professora, Regiane de Oliveira Millan, de 33 anos, disse que ela segue à base de calmantes. "Está confusa, em estado de choque e não lembra dos detalhes, mas não acredita que o tiro tenha sido proposital."

Da mesma forma, o dia seguinte no cenário da tragédia envolvendo um garoto de 10 anos e sua professora também foi de incompreensão. "Perguntam se eu conhecia bem o menino. Eu digo que não, justamente porque ele não frequentava a diretoria, tinha amigos, mas não se destacava. Da mesma forma, a professora era competente", diz a diretora da Escola Professora Alcina Dantas Feijão, Márcia Gallo. Duas professoras, Ana Paula e Priscila, que deram aula para D. no dia do suicídio, afirmaram não notar nada de anormal nele.

A delegada Lucy Mastellini Fernandes, titular do 3.º DP de São Caetano, também busca motivos. "Tudo que escutei até agora só confirma o fato de que era uma criança exemplar."

Na hora do crime, Rosileide pensou que um atirador tivesse invadido a sala. "Ouviu o estrondo e começou a sentir dor do disparo, já caída. Mesmo sangrando muito, gritou para que as crianças se abaixassem, pois ela achava que os alunos também seriam atingidos", diz o namorado.

Foi Hayakawa quem contou à professora o que aconteceu no colégio. "Ela ficou chocada quando soube que era o D., chorou muito e não acreditou que, justo ele, que sempre considerou um aluno educado, pudesse querer fazer mal a ela." No início, ele e a professora acharam que pudesse ser até outro aluno, indisciplinado, de mesmo prenome.

Sem solução. Para especialistas, é difícil evitar que alunos entrem com armas dentro das escolas. "Hoje é possível contrabandear coisas ilícitas, da mesma maneira que um estudante pula o muro para sair dela", afirma o especialista em segurança pública Guaracy Mingardi. Para a psicopedagoga Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), estudantes com a intenção de praticar um crime não se sentiriam intimidados nem com a presença de detectores de metais nas escolas. "Vão ficar do lado de fora, esperando por seu alvo para atirar", observa. /COLABORARAM WILLIAM CARDOSO, FLÁVIA TAVARES e GIO MENDES

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