O curador do museu dos crimes que marcaram SP

Ele já foi chamado de fetichista da morte, mas não liga. No fundo, até simpatiza com a alcunha. Policial civil aposentado, Milton Bednarski, de 82 anos, enxerga as histórias de crimes que coleciona como obras de arte. São investigações das quais participou quando estava na ativa ou tragédias sangrentas cujas fotos e narrativas ele expõe no Museu do Crime, no centro, que leva seu nome. São casos de esquartejamentos, estupros, parricídios e crimes cometidos por tarados e assassinos loucos desde o século passado.

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h06

Nascido em 1929, na Rua da Glória, no Bom Retiro, Bednarski cresceu em meio à colônia italiana, vizinho de uma casa que havia sido palco de um crime que escandalizou a cidade em 1917. Nela, morava a família de um italiano que passou a se relacionar com a própria filha depois que ficou viúvo. O incesto gerou dois filhos, que, quando nasceram, foram emparedados no muro da casa deles. Quando a polícia descobriu o crime e tirou a foto no cenário da tragédia, a mãe e a avó de Bednarski aparecem na imagem, entre os curiosos.

"Sou aficionado pelo tema desde sempre. Comecei na polícia ainda menino, com 18 anos, e minha vida inteira foi investigar esses casos. Acho que eles ajudam a entender um pouco mais da história da cidade", diz o curador-policial, que anda até hoje com uma Taurus prateada na cintura, o chamado três oitão. "Alguém com a minha trajetória não pode andar desarmado."

Estão no seu currículo algumas prisões importantes, criminosos que ele define como "bandidos de grife". Casos como o de Benedito Moreira de Carvalho, que ajudou a prender em 1952. O tarado, que agiu por seis anos, seria depois acusado de asfixiar e abusar de oito meninas. Em um dos seus últimos crimes, descobriu-se que o estrangulamento tinha sido feito por um bandido sem dedo indicador. Os investigadores foram ao sindicato dos serralheiros e pediram a ficha dos trabalhadores aleijados. Entre as diversas fichas, chegou a de Carvalho, o único que havia faltado no trabalho, bem no dia em que as mortes ocorreram.

Também prendeu João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, no Paraná, em 1967. Durante seis anos, depois de dois roubos seguidos de morte e dois homicídios, ainda não se sabia a identidade do criminoso. Até que uma "tomada datiloscópica", termo técnico de impressão digital, foi deixada na beira de uma janela. "Conseguimos finalmente descobrir quem ele era. Nós o prendemos em uma pensão. Homem forte, bateu em quatro policiais", recorda-se.

Certos crimes causam calafrios e transformam São Paulo em cenário de filme de terror. Como no episódio ocorrido em uma casa na Avenida 9 de Julho com a Rua Santo Antonio. Lá vivia o professor de Química da USP, Paulo Ferreira Camargo, com a mãe e duas irmãs. Era o ano de 1948, quando a família do químico sumiu. Os vizinhos contaram que o professor da USP havia construído um poço no quintal de casa. O delegado do caso, Walter Autran, pai do ator Paulo Autran, tomou depoimentos do criminoso, que se contradisse. A polícia seguiu para a casa do suspeito, que se matou com um tiro na cabeça. A família morta foi encontrada dentro do poço. "Anos depois, a casa foi comprada e demolida, para dar lugar ao Edifício Joelma, que pegou fogo em 1974. Sou espiritualista, mas acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. São apenas coincidências", diz.

Meneghetti. Com o passar dos anos, segundo o policial, o mundo do crime paulistano mudou demais. Bednarski reclama que a polícia hoje não tem o mesmo poder de antigamente por causa do "Tribunal de Nuremberg" - apelido que ele dá à Corregedoria. Os crimes patrimoniais eram atividades praticadas por amadores. Nos anos 1950, segundo se recorda, os grandes criminosos eram os cafetões da região da rodoviária velha, a boca do lixo de São Paulo, que se transformaria na cracolândia. O ladrão de joias Gino Meneghetti, que chegou a ser preso por Bednarski, por exemplo, para o policial "era um pobre coitado, que corria pelo telhado tomando tiro da polícia". "Vou enviar uma carta ao papa pedindo para que o Meneghetti seja beatificado, coitado. Era um santo se comparado aos bandidos de hoje", diz.

Policial aposentado, Milton Bednarski prendeu criminosos como o Bandido da Luz Vermelha

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