TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O combate à fome nas mãos das crianças

Em uma chácara em Jundiaí, alunos plantam alimentos distribuídos em projeto social

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

24 Dezembro 2017 | 02h00

SÃO PAULO - Há dois anos vivendo nas ruas da capital paulista, Tadeu Castro dos Santos, de 56 anos, é uma das cerca de 600 pessoas que diariamente almoçam no projeto Morador de Rua, mantido pelas Irmãs Vicentinas de Gysegem nos Campos Elíseos, região central de São Paulo. “A comida é muito boa”, elogia Santos, entre uma garfada e outra. Mas ele não fazia ideia de que aquela salada fresca em seu prato havia sido cultivada por crianças. “É mesmo?”, perguntou, surpreso. 

O caminho da fome sai do bairro de Ivoturucaia, em Jundiaí. Ali, numa área de 3 mil metros quadrados, está uma verdadeira chácara anexa ao Colégio São Vicente de Paulo, mantido por freiras da mesma congregação religiosa que o centro de apoio aos sem-teto paulistanos. “Há três anos decidimos utilizar este espaço para que as crianças aprendessem sobre o cultivo, a alimentação saudável. E, por outro lado, conseguimos ajudar quem tem fome”, explica Luci Rocha de Freitas, diretora da Rede Vicentina de Colégios. 

Em um trabalho capitaneado por três funcionários da escola, os alunos plantam, cuidam, regam e colhem de tudo. Hortaliças como alface (lisa, americana e roxa), escarola, almeirão, espinafre, cenoura, beterraba e pepino crescem, viçosas, em um trabalho totalmente orgânico, sustentável, sem agrotóxicos. “Até o processo de irrigação é ecologicamente correto. Temos cisternas que coletam água da chuva”, conta a diretora da unidade, Daniele Gutierres. O pomar ostenta 450 árvores, com 72 variedades de frutas. Manga de quatro tipos, laranja de outros quatro, acerola, caju, romã, pêssego, goiaba e um parreiral que começa a dar os primeiros frutos. É a natureza contra a fome.

Lucas Matheus Yamamoto, de 5 anos, é sincero ao dizer que gosta mais de comer do que de trabalhar na horta. Mas foi no manejo com os alimentos que ele aprendeu a ingerir cenoura – antes, admite, não gostava. “Aqui a professora me falou que ela é muito boa para a gente enxergar. Agora eu como cenoura na salada, no bolo e também com arroz”, enumera. 

“Tudo o que é produzido aqui vira alimento”, garante Daniele. Parte na própria merenda da escola. O restante para obras sociais mantidas pelas irmãs vicentinas. De acordo com Luci, os vegetais vão diariamente para o prato de 3 mil pessoas. 

Logística. Segunda-feira, sempre às 7h30, um caminhão estaciona dentro do colégio. “Em geral, são 170 caixas de produtos frescos toda semana”, comemora Luci. O destino está na cozinha de quatro projetos sociais das religiosas, entre os quais a casa que acolhe moradores de rua no centro de São Paulo. 

“Abençoadas essas crianças”, comenta Carlos Alberto Aguirre, de 55 anos, logo depois de terminar de comer um caprichado prato na sede do projeto Morador de Rua. Ele também não sabia a origem dos vegetais que o alimentam praticamente todos os dias.

Ao que parece, as Irmãs Vicentinas promovem diariamente aquilo que, na Bíblia, está narrado como o milagre da multiplicação dos pães. 

 

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