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O coelho, a vaca, um filósofo e Darwin

Sentando na padaria com um pingado e um pão na chapa, eu acabava de ler sobre a lei da chinchila, quando ouvi a conversa da mesa ao lado. Aparentemente, um coelho e uma vaca discutiam o mesmo assunto.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2014 | 02h02

O coelho, branco e fofo, com suas orelhas rosa, trêmulas de felicidade, não conseguia controlar a euforia. Você viu? Os seres humanos decidiram que é proibido criar animais com o objetivo de produzir peles, está na nova lei das chinchilas, vamos ser todos soltos, estamos livres. Vamos poder correr pelos campos floridos.

A vaca, seguramente holandesa, com a paciência dos animais que ruminam, balançava a cabeça esperando o coelho terminar. Só então deu a má notícia. Calma, essa nova lei não se aplica aos coelhos. Só as chinchilas serão beneficiadas. Afinal, perguntou a vaca, os seres humanos comem ou não comem carne de coelho? Comem, admitiu o coelho, lembrando do seu pai, já sem pele e patas, dependurado em um gancho. Então, disse a vaca, os humanos são detalhistas, a lei diz que é proibido criar animais com o fim exclusivo de produzir peles. Se a lei não tivesse a palavra exclusivo ela também se aplicaria a nós, bovinos, ou você esqueceu que bancos dos carros e sapatos são feitos com a nossa pele?

Os olhos modorrentos da vaca encontraram os tristes do coelho, agora ladeados por orelhas murchas. Um misto de frustração, inveja e raiva. Realmente, admitiu o coelho, aqueles animaizinhos insignificantes têm menos carne do que um rato, nem fritos à passarinho eles devem ser gostosos. E, em um ímpeto de maldade, acrescentou, que morram todos. Agora que sua criação foi proibida, os humanos não terão opção senão matar centenas de milhares de chinchilas.

Realmente, concordou a vaca, pelo menos continuaremos vivos. Vocês continuarão em gaiolas apertadas, procriando loucamente, e nós, separadas de nossos filhos, continuaremos sugadas por aquelas máquinas horrendas que extraem até a última gota de nosso leite. Mas continuaremos vivas.

Foi nesse momento que uma coruja pousou no espaldar da cadeira vaga. Decidiu filosofar e perguntou: qual é a vida que vale a pena ser vivida? Como todo filósofo, a coruja perguntou e respondeu. Suas vidas têm desvantagens, não há dúvida, mas também têm seus privilégios, vocês não têm de procurar comida todos os dias, se reproduzem à vontade, e suas doenças são tratadas. Continuou. Desfrutam o privilégio de ter duas das principais necessidades animais garantidas. Eu luto para encontrar comida nessa cidade, e sexo, nem pensar. Concedo, vocês morrem cedo, mas por outro lado têm uma morte rápida. Aliás, como qualquer animal, nem sequer sabem que vão morrer.

A vaca e o coelho balançaram a cabeça, concordando, e a coruja continuou. Vejam seus captores, os seres humanos. Uma grande parte deles vive em condições muito piores, não conseguem alimentos, observam seus filhos morrendo de fome ou doenças. E, quando vivem até mais tarde, acabam morrendo lentamente, com anos de sofrimento, consumidos por um tumor ou agonizando com uma doença crônica. E, pior, eles sabem que vão morrer. E, então, a vida de vocês vale a pena ser vivida, ou vocês preferem a extinção? A coruja se calou, orgulhosa do argumento.

Durante o silêncio que se seguiu, um senhor barbado, com paletó e colete, entrou na padaria e se sentou na cadeira vaga. Charles, se apresentou, Charles Darwin, ouvi alguém falando em extinção? A vaca, o coelho e a coruja se entreolharam. Atualizaram o recém-chegado que logo decidiu dar seu pitaco na conversa. A espécie humana, explicou, é sem dúvida o mais perigoso predador que surgiu na superfície da terra. Conseguiu domesticar, ou melhor, escravizar plantas e animais que hoje vivem e morrem para o bem do ser humano. Vocês, sr. Coelho e sra. Vaca, fazem parte desse grupo de espécies escravizadas e privilegiadas. Já a sra. dona Coruja faz parte de todo o resto dos seres vivos do planeta, que são considerados inúteis pela maioria dos seres humanos, estão sendo perseguidos, caçados e extintos. Dada a fome expansionista do ser humano e a condição de degradação do planeta, privilegiadas são as espécies escolhidas pelo ser humano. Podem sofrer, mas têm sua sobrevivência garantida. Cães, gatos, vacas, trigo e milho serão as últimas espécies a desaparecer da face da Terra, e isso só vai acontecer um pouco antes do desaparecimento do ser humano. Podem ficar tranquilos, vocês vivem melhor que muito ser humano.

O coelho e a vaca se levantaram mais animados, agora com pena das chinchilas que serão soltas ou mortas. A coruja levantou voo, desviou dos fios em direção a uma árvore e, satisfeita, imaginou: com tantas chinchilas soltas por aí, minha dieta vai melhorar. E eu decidi que não poderia perder a oportunidade de conhecer Darwin pessoalmente. Mas, ao me virar para a mesa de onde vinha a conversa, descobri que ele já não estava lá.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: CHINCHILAS NÃO PODERÃO SER CRIADAS PARA EXTRAÇÃO DE PELES. O ESTADO DE S. PAULO, 29 DE OUTUBRO DE 2014

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