O cineasta que filmou as estrelas do capão

Jeferson De, diretor de Bróder, filme que estreia na quinta, mistura moradores e [br]estrelas globais para mostrar a periferia da zona sul de São Paulo sem estereótipos

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

Durante três meses de 2008, o ator Caio Blat alugou uma casa no Capão Redondo, na zona sul, e tornou-se figura fácil dos botecos e mesas de sinuca do bairro, junto com o ator carioca Jonathan Haagensen. A imersão permitiu aos dois atuações memoráveis em Bróder, primeiro longa-metragem do diretor Jeferson De, que estreia na quinta nos cinemas.

Nas ruas e vielas do bairro, Blat se apresentava como Macu, nome de seu personagem de cabelo tosado e risca feita a navalha. Pegou os trejeitos dos jovens de lá, de quem também imitou o estilo de andar, cumprimentar e "proceder". A atriz Cássia Kiss, que mora no Rio, fez laboratório lavando louça e limpando a casa com mulheres do Capão. Um dia, circulava com um lenço na cabeça que usaria nas gravações quando foi parada por uma moradora que vestia o mesmo adereço. Conversaram rapidamente e trocaram de lenço. A peça rendada que aparece nas telas é da dona de casa do Capão.

Paulo Magrão, da ONG Capão Cidadão, fez a produção do filme no bairro e conseguiu perto de 40 lugares em uma favela para a filmagem. Mais de cem figurantes do Capão aparecem na tela. As gírias do mundo do crime, dialeto que aos poucos se espalha entre jovens da classe média paulistana, foram sugeridas por Ferréz, escritor local. O filme mostra um bairro cheio de armadilhas e alternativas, com habitantes cujos destinos dependem de suas escolhas, mas também do acaso e da sorte.

Jeferson De, o diretor do filme, de 42 anos, responsável por misturar estrelas globais e moradores do bairro para revelar no cinema um Capão complexo, sem personagens estereotipados, cresceu em área pacata na zona rural de Taubaté, no interior, vizinha da fazenda de Monteiro Lobato. Quando criança, nos anos 1970, acompanhou as gravações dos filmes de Mazzaropi. Asmático, via muita tevê.

Veio para São Paulo aos 20 anos para estudar Filosofia na USP. Mas passou a frequentar o curso de Cinema, de onde saiu no começo dos anos 2000 para assumir seu lado panfletário. O nome artístico que escolheu, aliás, é uma mostra desse engajamento. Assim como Malcolm Little assinava Malcolm X, Jeferson Rodrigues Resende preferiu cortar os sobrenomes. "Meus antepassados escravos provavelmente herdaram seus nomes de seus proprietários. Não sinto que esses sobrenomes me representem", diz.

Em 2005, ele ganhou notoriedade ao levantar a bandeira em defesa do cinema negro no Brasil, publicando o Dogma Feijoada, texto que propunha filmes com protagonistas e diretores da raça. Havia revolta, como se o mundo e o sistema estivessem contra ele. É dessa fase o curta-metragem Carolina, biografia da escritora Carolina de Jesus, premiado em Gramado. Mas o talento do cineasta começou a ser reconhecido. De repente, parecia que o sistema começava a aceitá-lo, apesar de suas críticas. "Sim, a questão racial continua importante. Mas existem outras formas de abordá-la. Hoje o que mais me interessa são os dramas e as buscas. A criação de Bróder me ajudou a amadurecer. Cortamos o lado panfletário. Restaram histórias. A questão racial aparece por meio de um protagonista branco", afirma.

Filmando em harmonia no Capão, até o tempo passou a jogar a seu favor. Durante cinco semanas, Jeferson De precisou gravar sequências externas. Se chovesse, as filmagens seriam adiadas e prejudicaria a agenda dos atores globais. Isso no primeiro trimestre, o mais chuvoso de São Paulo. Nesse período de 2008, não choveu um único dia. "Com a ajuda de Santa Bárbara e Iansã", diz.

Sob o olhar do diretor, os ataques de 2006 do Primeiro Comando da Capital aparecem brevemente no filme para mostrar uma cidade que amadurece aos trancos. "Acho que os ataques tiveram um lado pedagógico. Foi quando percebemos claramente que São Paulo é uma só. O que ocorre na periferia afeta também o centro."

É o Capão. Mas, quando o filme acaba, percebe-se que poderia ser qualquer lugar de São Paulo. A fotografia premiada de Bróder percorre as favelas, passeia pelo centro, marginais, cruza a Berrini, ao som de Racionais e Emicida. Revela uma metrópole de sotaques, tipos, gírias, heróis e bandidos, que formam um todo maior do que a soma das partes, como hoje se vê em poucas cidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.