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O chifre que envenena

O pescoço de uma gazela rompido por um carnívoro. Um toureiro transpassado na arena. Dentes e chifres são armas letais. Mas além de armas físicas, animais dispõem de armas químicas e psicológicas. É o caso de insetos venenosos que, por meio de cores vistosas, avisam seus predadores do risco que correm se tentarem abocanhar.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2015 | 02h00

Mas os bichos ficam mesmo perigosos quando associam uma arma física, uma química e completam a receita com um comportamento agressivo. É a jararaca. Ela arma o bote e pula de boca aberta. Os dentes perfuram o inimigo e injetam o veneno. A novidade é que um grupo de cientistas brasileiros descobriu nova arma letal, o chifre venenoso.

O Aparasphenodon brunoi (vou chamá-lo de Bruno) tem 9 centímetros, é malhado de preto-e-branco e pode ser encontrado no Espírito Santo, na reserva de Goytacazes. Já o Corythomantis greeningi (o Verde) tem quase 7 centímetros, é esverdeado e pode ser encontrado na Caatinga, em Angicos, no Rio Grande do Norte. Até agora não passavam de dois sapinhos simpáticos da fauna brasileira.

Os cientistas não contam os detalhes, mas deixam escapar que um deles, Carlos Jared, levou uma chifrada de um Verde ao agarrá-lo. O sapinho atacou e um espinho na cabeça do bicho furou a pele da mão de Carlos. A dor foi fortíssima, espalhou-se pelo braço e durou cinco horas. Coitado do Carlos. Mas é assim que a ciência avança. Não sei se foram os sintomas ou o fato de os cientistas trabalharem no Butantã, mas parecia que Carlos havia sido mordido por uma cobra venenosa e isso era inesperado.

Muitos sapos possuem glândulas venenosas na pele, mas o veneno só é liberado quando o sapo é agredido, mordido ou espremido. No caso de Bruno e Verde a coisa é diferente. A cabeça desses sapos possui dezenas de espinhos ósseos, pontudos, na forma de chifres, que se projetam para a frente e para a lateral da cabeça. Esses chifres são curtos e não são facilmente visíveis, mas atravessam a pele do sapo e ficam na superfície como se fossem pontas de agulha. Por entre os chifres estão as glândulas de veneno. Quando o sapo move a cabeça e bate com ela em um animal, as agulhas entram na pele e a pressão faz com que o veneno seja liberado. O resultado é semelhante ao provocado por uma máquina de tatuagem: a agulha faz o furo e veneno liberado pela glândula penetra na pele.

O veneno de Bruno e Verde não é fraco não. Os cientistas injetaram o veneno em camundongos e descobriram que ele tem um efeito semelhante ao de jararaca, mas é muito mais poderoso.

O camundongo sente muita dor e o veneno provoca um edema que dura por mais de 72 horas e pode matar. Enquanto são necessários 95 microgramas (milionésimo de uma grama) de veneno de jararaca para matar um camundongo, bastam 3 microgramas do veneno de Bruno para matar camundongo. É um veneno 25 vezes mais poderoso do que o de uma jararaca.

Combinando a habilidade desses sapos de mover a cabeça de maneira agressiva, com a presença de espinhos capazes de perfurar a pele e a existência de glândulas capazes de liberar simultaneamente um veneno potente, os cientistas concluíram que esses sapos merecem ser incluídos entre os animais peçonhentos. São os primeiros anfíbios a receberem esse título e o primeiro exemplo de um chifre venenoso. Agora é preciso estudar o comportamento desses sapinhos e descobrir como eles usam seus chifres venenosos. São simplesmente um mecanismo de defesa ou são usados para caçar?

MAIS INFORMAÇÕES: VENOMOUS FROGS USE HEADS AS WEAPONS. CURR. BIOL. VOL. 25 PÁG. 2.166 (2015)

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