O chef que virou ''prefeito'' de Moema

Allan Vila Espejo divide tempo entre 10 restaurantes, programa de TV e amigos

Valéria França, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Filho de fotógrafos espanhóis, Allan Vila Espejo, de 53 anos, é um chef conhecido em São Paulo. Há 15 anos, ele apresenta o programa Delícias do Chef, na TV Gazeta, e escreveu mais de dez livros de culinária. Mas, em Moema, bairro da zona sul da capital onde tem dez restaurantes - incluindo Don Pepe Di Napoli, Al Mare e Vila Conte - , Allan ganhou outro status. "É o prefeito da região", diz o chef francês Erick Jacquin."Todo mundo conhece o Allan."

Por mês, 180 mil pessoas passam por seus restaurantes. É um número equivalente à população de Araçatuba, no interior paulista. "Ele alimenta praticamente todo o bairro", brinca Jacquin. E Allan deve abrir mais um restaurante neste ano.

O chef adotou Moema em 1983, quando inaugurou o Don Pepe Di Napoli, em sociedade com Andrea Conte, até hoje responsável pela parte administrativa dos negócios. Não se trata de uma culinária autoral. "Faço a chamada cozinha cantineira, inspirada na gastronomia italiana, mas adaptada ao gosto dos brasileiros", diz. "Não existe filé à parmegiana na Itália, só em São Paulo. "

As porções são generosas. A maioria dos pratos é para duas pessoas. "Allan faz comida de todo dia, honesta e barata", resume Jacquin.

Filho de fotógrafos espanhóis, ele tentou primeiramente montar um restaurante de comida ibérica. Mas a cidade de São Paulo tem mais italianos e, segundo Allan, por isso não deu certo. "Em qualquer lugar do mundo tem pizza e macarrão à bolonhesa", explica.

Mas o sucesso em Moema não se deve só a gastronomia. O chef adora reunir as pessoas no restaurante e, não raro, em casa - para o tormento dos vizinhos. Um deles, que prefere não se identificar, foi à Prefeitura saber se Allan havia transformado a casa em pensão, tamanho o entra e sai de pessoas.

Ele mora em uma tranquila rua residencial de Moema e costuma ir a pé para os restaurantes. "Está sempre de uniforme, o jaleco branco", diz Emmanuel Bassoleil, chef executivo do Hotel Unique, na Vila Nova Conceição, bairro vizinho de Moema. "Allan é fanático pelo bairro", completa João Correa, de 58 anos, o português dono da Padaria Bienal, que fica nas proximidades da casa de Allan. "Comecei fornecendo pães e depois miudezas para o café da manhã do Vila Conte (que é 24 horas) e viramos grandes amigos. Ele é do tipo que agrega."

Festeiro. Domingo passado, Correa levou a família para comemorar o Dia dos Pais na casa de Allan, que mora com a mulher, a bióloga Ana Maria Buhller, de 32 anos, e o filho caçula, Júnior, de 1 ano e 9 meses. Mas também foram ao almoço seus outros quatro filhos, frutos de dois casamentos anteriores. Teve bacalhau na tasca e, para animar, uma cantora de fado que se apresentou na garagem com caixas e amplificadores.

"Allan está sempre inventando alguma coisa. É ligado no 220", resume Bassoleil. Entre suas invenções famosas está a maior brachola do mundo, com 180 quilos, que foi parar no Guinness, o livro dos recordes. Na Copa de 1998, colocou um telão de 20 metros na Alameda dos Arapanés em Moema e distribuiu pizza e chope. Também ganhou fama quando organizou o carnaval no bairro.

"Consegui o apoio de uma cervejaria, que levou para a rua um caminhão com 7 mil litros de chope", lembra Allan, que nunca perde a oportunidade de fazer seu marketing. "Ele é engraçado. Em um carnaval, fez uma macarronada imensa e, no fim, entrou dentro da panela com molho", lembra Bassoleil. "O marketing é o segredo do negócio", reconhece Allan.

Paella. Dos dez restaurantes em Moema, o La Tasca é o único que não faz parte da rede italiana que Allan tem em sociedade com Conte. Trata-se de uma casa espanhola, que abriu para a filha Miréia Garcia, de 25 anos, tocar com a ajuda do marido, Mario Augusto Carvalho, de 29. Ambos são chefs.

No início do mês, Miréia começou a dar aulas de paella, seguidas de degustação. E lá estava o chef Allan, que no meio da turma apareceu para sortear um de seus livros de receitas, Ovos Sem Casca. Como emagreceu 20 quilos nos últimos dois anos, alguns demoraram a reconhecê-lo. Segundo o pai, Miréia não gostou da intervenção inesperada, mas ele não se acanhou e depois justificou. "Ela tem sangue espanhol. É brava."

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